O lado B da história de Cesare Battisti

Brandão e Calligaris na Flip: apoio ao boicote de Antonio Tabucchi

“Foram aplaudidos com moderação”. Essa frase foi o que me chamou a atenção no texto publicado no site da 9ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty – http://www.flip.org.br) sobre a forma como o público acolheu os escritores Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris quando manifestaram apoio ao escritor italiano Antonio Tabucchi, que cancelou sua participação na Flip em protesto à decisão do ex-presidente Lula de não extraditar o italiano Cesare Battisti.

A acolhida morna da plateia pode significar muitas coisas, mas uma delas é que o tema ‘Cesare Battisti’ não tem um consenso, uma opinião dominante e determinada, como gostariam os que defendem sua extradição. Esse é um caso em que falta mais esclarecimento para o público, e talvez a Flip pudesse convidar Battisti no próximo ano, já que ele é autor de pelo menos 15 livros, e reconhecidamente voltado para os romances policiais.

“Defendo tão-somente um processo imparcial, desapaixonado, conforme aos princípios do direito europeu e do bom senso – defendo, e este é o sentido deste prefácio, que se assegure a Cesare Battisti o direito de confrontar, pessoalmente, o seu passado e o seu destino”, afirma o jornalista e filósofo francês Bernard-Henri Lévy, no prefácio do livro ‘Minha fuga sem fim’, de 2007, em que Battisti narra sua trajetória desde a participação, nos anos 70, no grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC). Esse livro é o primeiro de uma tríade em que Battisti resgata sua biografia. ‘Ser bambu’, de 2010, é o segundo título e o terceiro deve sair em breve, todos eles pela editora Martins Fontes.

Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália em 1993, sob acusação de quatro assassinatos – pelo menos um deles, o de Antonio Santoro, comandante de prisão, foi reivindicado pelo PAC. O problema da condenação de Battisti é que sua base foi exclusivamente o depoimento do ex-ativista Pietro Mutti, também participante do grupo rebelde e que, segundo Lévy, poderia ter tentado comprar sua própria salvação ao incriminar o ex-companheiro. Pesa também sobre a condenação de Batistti o ‘regime da contumácia’, em vigor na Itália, que o impediria de ter novo julgamento caso fosse extraditado.

Na fuga, Battisti se refugiou na França, onde depois foi beneficiado por um ato do governo de François Mitterrand, de acolher todos os ex-adeptos da guerra revolucionária italiana, desde que assinassem a deposição de armas. Esse acordo foi respeitado por nove governos sucessivos até que Battisti sofresse um novo revés jurídico e acabasse no Brasil.

Battisti foi libertado em junho por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que por seis votos a três confirmou a decisão do governo Lula de negar a extradição, acatando a questão como relativa à soberania do País.  “Entendo que o presidente da República praticou um ato político, um ato de governo, que se caracteriza pela mais ampla discricionariedade [algo amplo, ilimitado]”, afirmou o ministro Ricardo Lewandowski ao declarar seu voto.

 

Minha fuga sem fim,

Cesare Battisti, Editora Martins Fontes, São Paulo, SP, 2007, 283 págs.

Foto: Divulgação

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