Febre de viver com Betty Blue

Beatrice Dalle incorporou o espírito de Betty Blue na vida real

A paixão é uma experiência que está longe de ter o prestígio de uma relação de amor. É assim que nos acostumamos a pensar sobre esse assunto. Mas é o próprio amor, ou a paixão…, que faz as verdades caírem por terra. Há momentos em que não sabemos a diferença entre uma coisa e outra. O fato é que a paixão tem uma força, é uma febre que transforma o sujeito.

Foi com fúria apaixonada que li o romance ‘Betty Blue – 37,2º de manhã’, do escritor francês Philippe Djian, que recria o estilo libertário e visceral de norte-americanos como Henry Miller (1891-1980) e Jack Kerouac (1922-1969). Kerouac foi o criador na literatura da Geração Beat, precursora da contracultura nos anos 60.

37,2 graus é a temperatura do corpo da mulher grávida, um estado febril. No caso de Betty, essa febre pode levar à loucura. O romance é a trajetória de Zorg e Betty, que aos 30 e poucos anos vivem uma paixão enlouquecida, em meio a trabalhos ocasionais, roubos, brigas e bebedeiras.

A história de Djian foi para as telas do cinema em 1986 com direção de Jean-Jacques Beineix. O filme projetou o escritor para o mundo e lançou a atriz Beatrice Dalle, dona de uma beleza exótica e naquela época ícone do movimento punk na Europa. Na vida real, Beatrice parece não conseguir se livrar do estigma de Betty, vivendo às voltas com drogas e pequenos furtos.

Djian já declarou que não gostou do filme e que o considera oposto ao livro. Ele afirmou que enquanto o escrevia “em algum lugar em minha mente havia apenas um personagem, metade homem e metade mulher”. O escritor acha que o filme tornou a história ainda mais brutal porque apresenta os dois personagens sempre como distintos.

Zorg é zelador em um motel e Betty uma garçonete. Mas ambos não têm raízes com o mundo e caem na vida em busca de um significado maior do que consumir e cumprir com as eternas obrigações cidadãs. Betty descobre que Zorg tem um romance escrito em cadernos e datilografa o manuscrito para enviar cópias às editoras. Zorg, no entanto, permanece como escritor fracassado até que consegue a publicação em um momento em que isso não significa mais nada.

A paixão desenfreada entre Zorg e Betty soa como uma alegoria, figuração da fúria do desejo de ser mãe, considerando que os dois podem ser uma só pessoa. Djian tem uma fluência em seu texto que leva o leitor a também se apaixonar por Betty, uma mulher rebelde e impetuosa, que nega os valores estabelecidos para beleza e comportamento.

Betty era como um terremoto: “Eu podia reclamar um pouco de praxe, mas o veneno já tinha invadido meu cérebro, como esse mundinho ressecado e murcho era pesado ao lado dela”, diz Zorg ao perceber que a paixão pela aventura também o havia tomado.

Morte, amor e paixão – essas três palavras fundamentais do ser humano deslocam seus significados até a loucura nas páginas de ‘Betty Blue’ – pode haver um momento em que matar é um ato de amor.

Betty Blue 37,2º de manhã,

Philippe Djian, tradução de Rogério Altman, editora Scritta, 1991, SP, 269 págs.

Onde encontrar – www.estantevirtual.com.br

Foto: Divulgação

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