DaMatta investiga a agressividade no trânsito

DaMatta: discussão sobre cultura do trânsito pode ajudar a convivência

Os acidentes de trânsito no Brasil fazem vítimas como uma epidemia. Perto de 35 mil pessoas morrem por ano e a principal razão dessa tragédia é o comportamento do motorista. Um segundo fator é a postura do pedestre, arriscando-se fora das regras de segurança nas travessias. Tanto num como noutro personagem há em comum a ideia de que as leis de trânsito existem, mas podem ser burladas em algum momento.

O comportamento que se reproduz entre os indivíduos indica que existem traços culturais do trânsito, que podem ser conhecidos para que as políticas de prevenção ganhem mais eficiência. Foi para revelar esses traços que surgiu o livro ‘Fé em Deus e pé na tábua ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil’, do antropólogo Roberto DaMatta, professor da PUC do Rio e estudioso dos dilemas, contradições e identidades da cultura brasileira.

DaMatta adota no livro a mesma perspectiva de sua obra essencial – ‘Carnavais, malandros e heróis’ – em que esmiúça os valores escondidos em manifestações da linguagem, como na pergunta ‘Você sabe com quem está falando?’. No caso do trânsito, o símbolo que revela o modo de pensar do motorista é a frase ‘Fé em Deus e pé na tábua’, uma expressão constituída de uma relação dupla de valor: de um lado o mito da proteção divina com ‘fé em Deus’ e de outro a razão do ‘pé na tábua’, que dá a suposta licença para que o sujeito exerça sua liberdade ameaçando o outro.

Essa licença só ocorre porque existe uma hierarquia no trânsito, herança da cultura no tempo da escravidão, quando deveria haver apenas igualdade segundo as regras de conduta e a sinalização. Essa hierarquia está implícita ou inconsciente, como a mensagem subliminar em uma propaganda, e é dada pelo valor dos veículos, desde o carrão do ‘bacana’ até o ‘poizé’ ou ‘jabiraca’, cujo motorista também encontra um modo de justificar seus deslizes. Lembro que uma vez vi uma pesquisa que contava 10 mil infrações cometidas para cada multa aplicada.

“O brasileiro sempre infringe alguma regra, é dele, é de sua natureza”, diz um motorista cotidiano para a pesquisa de DaMatta. A contradição principal que existe nesse comportamento é dada pela oposição entre ‘pessoa’ e ‘indivíduo’.  A primeira palavra refere-se ao círculo de relações sociais, em que todos se conhecem e formam uma classe – o brasileiro adora privilégios de classe –; já a segunda palavra é da ordem do que é comum, público, e que remete à igualdade de direitos no espaço comum. A rejeição a essa igualdade se traduz no ódio ao outro, ao anônimo – o brasileiro é tudo de bom para os amigos e mal-educado quando está no trânsito ou transporte coletivo. DaMatta acredita que essa discussão é fundamental para melhorar a convivência nas ruas.

Fé em Deus e pé na tábua ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil,

Roberto DaMatta, com João Gualberto M. Vasconcelos e Ricardo Pandolfi, editora Rocco, RJ, 2010, 191 págs.

Foto: http://www.proac.uff.br/

Anúncios

Um pensamento sobre “DaMatta investiga a agressividade no trânsito

  1. Adorei seu blog e suas valiosas informações! Deixe-me apresentar-me! Sou Maria Olivieri, tenho 52 anos, aluna de Letras da UFRJ,escritora, trabalho na Auto Viação Fagundes, no GPS conhecido como CCO (Centro de Controle Operacional) Iremos fazer no próximo mês uma semana do trânsito com os PTC S da empresa e estou pesquisando literatura de trânsito, onde acabei encontrando o blog. Comprarei o seu livro! Um grande abraço professor!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s