Filósofos encontram sentidos para a arte política

Cortella: política para a convivência

A corrupção na administração pública e na vida legislativa alimenta a ideia de que “política é coisa de idiota”.  Partindo desse conceito generalizado, que na verdade é um preconceito, os professores e filósofos Mario Sergio Cortella, da PUC-SP, e Renato Janine Ribeiro, da USP, elaboraram um texto em forma de diálogo sobre os sentidos de se fazer política nos dias de hoje, tempo de democracia, e o publicaram no livro ‘Política para não ser idiota’.

Considerando que no cotidiano temos papéis de pessoa e de cidadão, Cortella explica que ‘idiota’ (idiotés, em grego) significava na antiguidade aquele que só vive a vida privada, que recusa a vida pública ou o exercício da política. Temos então uma inversão com a crença de que “política é coisa de idiota” – na verdade, usamos esse artifício para destilar ódio, nojo das coisas que os maus políticos fazem e que parecem não ter nada a ver conosco.

Mas o governo, o Estado, os congressistas, as instituições públicas não são algo externo, “fora de mim”, mas resultam do exercício da cidadania, que é a ação política de cada um. O voto e a responsabilidade que ele representa comprometem o eleitor e o político, e isso muitas vezes cai no esquecimento daquele mesmo que reclama que a corrupção é coisa “deles”.

Janine: política na busca de felicidade

Os autores puxam a orelha dos educadores e das escolas: falta resgatar o verdadeiro sentido de ‘política’ – para os gregos, por exemplo, ela era o exercício da liberdade e a busca de felicidade – e dar referências para o aluno perceber que a cidadania é sua própria ação, que a política não está restrita à vida partidária.

Mas há ainda outras possibilidades de compreender a questão. “A política seria uma maneira de lançarmos luz sobre essas teias invisíveis que nos dominam e tentarmos controlá-las”, afirma Janine, referindo-se às verdades, às determinações que governam nossa vida, muitas vezes, sem que tenhamos consciência, como, por exemplo, os valores e necessidades criados pela overdose de publicidade.

Política é também convivência. Ao sair na rua, ao entrar no metrô ou ônibus o indivíduo usufrui do espaço e do serviço público e exerce uma ‘política’ na relação com o outro anônimo, observando um código de comportamento. Melhorar a qualidade dessa convivência é um desafio atual, é um combustível da política hoje, tanto quanto combater a corrupção. Mas para isso é preciso enxergar o outro, perceber que a “minha autonomia” não precisa ferir o direito do outro.

Política para não ser idiota,

Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, editora Papirus 7 Mares, Campinas, 2010, 112 págs.

Fotos: Divulgação

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