Angústia no cenário do romance regionalista

O escritor Lúcio Cardoso era católico e homossexual

O romance regionalista do início do modernismo no Brasil, que adotou como emblemas as obras de José Lins do Rego, Jorge Amado e Rachel de Queiroz, tem um ‘outro lado’, com uma conotação intimista, angustiante e obscura, que se expressa no primeiro romance do escritor mineiro Lúcio Cardoso (1912-1968), chamado ‘Maleita’ e originalmente publicado em 1934.

O livro surpreende pela maturidade da prosa se levarmos em conta que Cardoso o escreveu entre os 17 e os 19 anos. Ele se inspirou nas aventuras de seu pai na vida real, que foi uma espécie de agente civilizador na cidade de Pirapora, norte de Minas Gerais, às margens do rio São Francisco.

A história de Cardoso começa em 1893. A fundação oficial da cidade foi em 1912 e no próximo ano ela vai comemorar seu primeiro centenário.

Apesar do momento literário nos anos 30, ‘Maleita’ não é propriamente um romance moderno. Ele traz influências do período romântico, principalmente de uma corrente que era chamada de ‘naturalista’, criada pelo escritor francês Émile Zola (1840-1902).

No naturalismo, as forças da natureza explicam o mundo e o ser humano resulta do meio em que vive e de suas características biológicas – é uma visão que predominou no ‘cientificismo’ do século 19 e que suscitou pensamentos como os da eugenia, de que as raças podem ser ‘melhoradas’.

No livro ‘História concisa da literatura brasileira’ (editora Cultrix), o professor e crítico Alfredo Bosi afirma que a opção pela fórmula naturalista foi “um engano cultural” do escritor, que tem em ‘Crônica da casa assassinada’ (1959) uma de suas histórias mais expressivas. Esse fato, no entanto, torna ‘Maleita’ um livro ainda mais interessante, já que ele é um exemplar do escritor em formação.

Naquele pedaço de sertão cortado pelo São Francisco, maleita não é apenas a doença literalmente, a malária, mas um estado de alma, uma espécie de metáfora da vida preguiçosa e apática no sertão, em um vilarejo que abriga ex-escravos e caboclos, um lugar que é um resto de quilombo, sem contato com a civilização, afinal, nem ali param os vapores que seguem o rio.

Cardoso era tido como um escritor espiritualista e católico, cujo pensamento se aproxima de Cornélio Pena, Jorge de Lima e Vinícius de Moraes. Essa postura fica evidente no livro, na maneira como o narrador explora o processo civilizatório imposto aos habitantes de Pirapora.

Como pagãos, eles vivem sem pudores. Homens e mulheres ficam nus para ir ao rio e não se incomodam de andar assim pela cidade. Também fazem festas todas as noites sob o som de acordeão, bebem cachaça e se imiscuem sexualmente.

Mas o civilizador impõe uma nova ordem, estabelece valores morais cristãos, sob a força dos chicotes de seus capatazes. O processo civilizador mostra-se assim como ato de opressão, o que não chega a ser diferente dos dias atuais.

Maleita,

Lúcio Cardoso, editora Civilização Brasileira, RJ, 2005, 236 págs.

Foto: Divulgação

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