Palavras que ampliam o poder dos sentidos

Britto fez sua estreia na ficção em 2004

O estranhamento de pessoas e coisas é uma forma de produzir conhecimento. ‘Estranhar’ é como ver pela primeira vez. Você se apropria de formas, texturas, cores, enfim, de qualidades sensoriais para construir um significado que permita reconhecer algo ou alguém e abandonar o sentimento de estranheza.

Isso é o que fazemos, sem perceber, em várias situações no dia como, por exemplo, quando estamos anonimamente no transporte coletivo, observando os outros com discrição e curiosidade.

O processo de tomar consciência de coisas banais é transcendental, é algo que fornece farta matéria-prima para a literatura, como é o caso do livro de contos ‘Paraísos artificiais’, de Paulo Henriques Britto, que marca a estreia na ficção do poeta, tradutor e professor da PUC-Rio.

A obra, composta de oito contos e uma novela, foi lançada em 2004, mas os textos são dos anos 70, quando o poeta morou em São Francisco (EUA), fase em que estava influenciado pelo escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989), um dos criadores do teatro do absurdo. Os contos de Britto foram burilados ao longo dos anos, e parte o escritor descartou.

O título ‘Paraísos artificiais’ é uma referência ao escritor francês Charles Baudelaire (1821-1867), que em obra homônima tratou do consumo de haxixe, ópio e vinho, em narrativas que detalham como essas drogas ampliam os sentidos.

Na história que abre o livro, intitulada ‘Os paraísos artificiais’, o narrador de Britto percorre ideias com uma percepção aguçada, como se estivesse entorpecido, tomando consciência de seus movimentos mecânicos para se manter sentado em uma cadeira, ora cruzando as pernas, ora procurando outra posição, em um processo ditado pela repetição da sequência de ‘prazer, inércia e desconforto’ que produz cada movimento do corpo. Essa percepção permite ao narrador tomar consciência de sua insignificância e de que a vida é um caminhar em direção à morte.

No conto ‘Uma visita’, a questão central é o caráter duplo da personalidade. Já se preparando para dormir, o narrador escuta alguém chamar seu nome na rua, sai à janela, mas não reconhece o visitante inesperado e a partir daí a narrativa se desloca entre os modos que cada um vê o outro, em um jogo de linguagem que revela o quanto o outro é importante na imagem que temos de nós mesmos.

A novela, chamada ‘Os sonetos negros’, é uma deliciosa e irreverente história de uma estudante de literatura que se especializa na obra da poetisa fictícia Matilde Fortes e vai à sua cidade natal, a também fictícia São Dimas, no interior do Rio, em busca de um manuscrito para sua pesquisa. Britto traça um retrato crítico e irônico do meio acadêmico, mostrando como verdades instituídas podem ser mentiras. O escritor não poupa também a literatura de sua ironia, já que a própria Matilde é a biografia de uma fraude, como o leitor poderá conferir.

 

Paraísos artificiais,

Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, São Paulo, 2004, 127 páginas.

Foto: Bel Pedrosa/Divulgação

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