Castaneda cria outra dimensão da realidade

Deserto de Sonora abriga as plantas estudadas por Castaneda

Encontrei um livro em um sebo, e que também está nas livrarias, que foi um best-seller entre os jovens quando lançado, em 1968. ‘A Erva do Diabo’, do escritor peruano Carlos Castaneda (1925-1998), foi praticamente uma bíblia para o movimento da contracultura, criando uma legião de seguidores que buscavam repetir as experiências com plantas alucinógenas descritas pelo autor.

Castaneda escreveu essa obra inaugural de sua carreira como dissertação de mestrado em antropologia na Universidade da Califórnia (EUA), depois de cinco anos como aprendiz de feiticeiro de um índio yaqui, do deserto de Sonora, México.

O livro trata assim do difícil percurso para cumprir os ensinamentos do bruxo, que o autor chama de Dom Juan. A obra está organizada em duas partes. A primeira é um texto literário, motivado por diálogos, revelando a relação que se estabeleceu entre mestre e aprendiz. A segunda parte, menos importante, trata das questões conceituais que estruturam o mundo de símbolos do feiticeiro.

Ao procurar Dom Juan, a ideia de Castaneda era tão somente estudar o uso de plantas alucinógenas por sociedades indígenas. Mas ao aprofundar o relacionamento com o índio, o então estudante encontrou outras formas ou dimensões para representar a realidade, o que ele chamou de “estados de realidade não comum”, referindo-se a uma forma mágica de pensar, que nos leva para fora do cotidiano.

As plantas usadas por Dom Juan são o peiote, um cacto típico daquela região; a datura, que também é chamada ‘erva do diabo’; e os cogumelos – estes recebem o apelido de ‘humito’(fuminho). Mascando, bebendo infusões ou fumando, o que está subjacente à abordagem dessas substâncias é a ideia de absorver seu poder para a mente e o corpo.

Segundo Dom Juan, há uma espécie de hierarquia entre essas plantas, de tal modo que o peiote, que ele chama de Mescalito, é um mestre, um protetor, “que mostra como se deve viver”. Já a datura e os cogumelos são aliados, podem ser domesticados e agem como auxiliares para se atingir o conhecimento.

As palavras bruxo ou feiticeiro, no texto de Castaneda, têm o sentido de alguém que atinge um conhecimento superior, que detém uma consciência ampla da realidade. Não é possível, portanto, levar essas palavras ao pé da letra. A disposição para abandonar verdades estabelecidas e mergulhar em outro mundo é o que fascina o leitor de Castaneda. O livro é uma viagem por um universo em que as leis da física e a nossa pretensão de fazer a lógica prevalecer sobre os fatos viram pó.

Na minha experiência de leitura, pensei bastante sobre a religiosidade humana, e na tendência que temos para personificar a fé na figura de Deus. Isso porque o Mescalito, para Dom Juan e para Castaneda, assume a forma humana na alucinação, e também com uma dimensão divina, transcendental.

 

A Erva do Diabo, os ensinamentos de Dom Juan,

Carlos Castaneda, tradução de Luzia Machado da Costa, editora Record, RJ, 246 págs.

 

Foto: http://aipagotto.wordpress.com/

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