Desejos perversos na vida de um samurai

Tanizaki foi o primeiro escritor japonês membro da Academia Americana de Artes e Letras

Na década de 30, fase em que estava envolvido com a produção de textos históricos, o escritor japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) publicou a novela ‘A vida secreta do senhor de Musashi’, lançada aqui no Brasil em 2009.

A narrativa apresenta o percurso de um jovem samurai movido por suas perversões sexuais, escondidas sob a figura de um bravo lutador, herdeiro de um feudo no Japão durante o século 16. “Há muitas histórias obscuras na vida sexual de personagens históricos que ficaram conhecidos como heróis valorosos”, afirma Tanizaki no prefácio.

Inspirado no lendário Myamoto Musashi, o samurai real que viveu naquela época, Tanizaki, um dos escritores japoneses mais conhecidos no mundo ocidental, criou um personagem fictício que rompe com a máscara das histórias de louvor à bravura e aos feitos desses heróis.

No passado era comum no Japão as pessoas mudarem seus nomes de acordo com a fase em que viviam. Assim, o senhor de Musashi é Hôshimaru no início da história, que traz a sua infância, e Terukatsu, quando jovem lutador em um período marcado pelas guerras entre os feudos.

A novela percorre dez anos da vida do herói, a partir do momento em que ele se vê entre refugiados no castelo em que morava, durante uma guerra civil, e tem em si despertado o prazer da proximidade com as mulheres.

Tanizaki constrói a narrativa referindo-se a textos escritos por pessoas que conviveram com o herói. A novela se vê assim entre incertezas, hipóteses e contradições, o que acaba por também desmascarar o fato de que a existência da história oficial é algo questionável.

Durante essas guerras, era comum o samurai decepar a cabeça do inimigo para exibi-la como prova de sua bravura. Assim, as mulheres se ocupavam, durante a noite, de tratar essas cabeças com banho, penteado, maquiagem e etiquetagem.

Foi numa dessas sessões que o pequeno Hôshimaru viu uma garota manipular uma ‘cabeça-mulher’, assim chamada porque tinha o nariz decepado. Foi tal o êxtase provocado, que a busca de repetição desse prazer, que aproxima sexo e necrofilia, passa a mover toda a história.

Tanizaki conta com percepção aguda e ironia refinada uma história do lado obscuro da personalidade, permeada por sadomasoquismo, associações de sexo e violência, ou relações de dominação e submissão. Em psicanálise esse é um traço fundamental da personalidade, que surge em manifestações infantis, criando uma espiral de desejo para a vida.

O livro também traz a novela ‘Kuzu’, que mostra um escritor perdido entre relatos, cartas e outros documentos ao tentar escrever um romance sobre o Imperador Celestial, que viveu no século 15. Tanizaki discute nesse texto a necessidade da subjetividade, da arte e da imaginação para compor a história.

A vida secreta do senhor de Musashi,

Junichiro Tanizaki, tradução Dirce Miyamura, Companhia das Letras, SP, 2009, 218 págs.

Foto: Divulgação

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