Paulo Freire recupera a boniteza da vida

Freire: 90 anos de nascimento em 19 de setembro

A violência nas escolas não tem fim e isso está mais para sintoma de uma doença da sociedade do que um problema escolar. Na semana passada, foi a vez da educação de São Caetano do Sul entrar para o currículo da violência com o caso do aluno que, de posse de um revólver calibre 38, feriu a professora diante dos colegas e depois se matou.

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) também divulgou que os casos de agressão nas escolas do estado têm crescido entre 30% e 40% por semestre. Há poucos dias, a televisão mostrou casos de pais de alunos que saem no braço porque tomam as dores dos filhos em conflito. A pergunta óbvia: o que está acontecendo com nossa capacidade de respeitar o outro?

Motivado pela questão, busquei o livro ‘Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa’, de Paulo Freire (1921-1997), que teve os 90 anos de seu nascimento comemorados em 19 de setembro. Se estivesse vivo, o educador ficaria triste diante da realidade das salas de aula hoje. Ao mesmo tempo, parece não faltar quem tenha interesse na obra do grande filósofo da educação, a última publicada por ele em vida. Esse livro é o terceiro na lista dos 500 mais vendidos do site Estante Virtual.

Carregamos assim em nosso legado uma contradição: gostamos de ler a obra do mestre, mas nossa prática em sala de aula deixa a desejar. A primeira ideia que me ocorreu ao ler Freire é que falta rever o papel do professor e do aluno. Falta recuperar o valor simbólico e moral do espaço e do tempo que definem a escola, já que ela tem se tornado palco de purgação de raiva e autoritarismo.

A escola é onde se constrói o conhecimento, e por isso um lugar sagrado, de troca de experiências e de preparação para a vida em sociedade. Freire alerta que educação não é transferência de conhecimento, como está na prática do ensino burocrático, que ele denomina como ‘bancário’. Para Freire, educar tem o sentido de algo sempre inacabado: “…quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado”.

Ética e estética são dois valores permanentes do educador. A ética permeia seu discurso, como um martelo constante, tentando quebrar as resistências do leitor. “A ética de que falo é a que se sabe afrontada na manifestação discriminatória de raça, de gênero, de classe”.

A estética, por sua vez, é uma espécie de bem espiritual, que Freire chama de boniteza. Ela resulta da nossa capacidade, como educador e como educando, de intervir no mundo, e transformar a curiosidade ingênua em uma visão crítica, que pode mudar a realidade e dar ao sujeito seu lugar na história. Esse é um discurso contra o conformismo, como é hoje a visão fatalista de que a violência está na escola porque está em todo lugar.

Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa,

Paulo Freire, editora Paz e Terra, São Paulo, 143 págs.

Foto: https://centrodeestudosambientais.wordpress.com

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