Ler Cortázar e pensar no sentido da vida

Cortázar é considerado referência do realismo fantástico

Em uma família com diferentes obsessões, uma tia tem medo de cair de costas e, por isso, sempre que se desloca para qualquer lugar mobiliza todos à sua volta, que cuidam para remover obstáculos ou rastros que representem riscos. Movendo-se como um boxeador, com as pernas arqueadas e as costas para frente, a senhora blasfema contra tudo o que possa exaltar seu medo.

Em outra pequena história, a família monta um patíbulo [palanque com estrutura vertical de madeira para enforcar condenados] no jardim na frente de casa, atraindo a atenção dos transeuntes, que se manifestam entre protestos e ameaças. A construção de madeira, no entanto, vira palco de um jantar sob luar, esvaziando os olhares dos curiosos.

As narrativas estranhas estão na base de ‘Histórias de cronópios e de famas’, do escritor belga de pais argentinos Julio Cortázar (1914-1984). O livro foi escrito em Roma e Paris nos anos 50 e publicado em 1962, um ano antes de ‘O jogo de amarelinha’, seu mais famoso romance.

A obra é organizada em quatro partes: manual de instruções, estranhas ocupações, matéria plástica e histórias de cronópios e de famas. Nesta última, Cortázar monta um retrato da sociedade argentina por meio de três classes que ele chama de ‘cronópios’, ‘famas’ e ‘esperanças’. Os cronópios são ligados ao lirismo, à poesia, ao esquecimento, à ingenuidade. Já os famas são compenetrados e racionais; e “as esperanças são bobas”, afirma Cortázar.

O professor de teoria literária Davi Arrigucci Júnior escreveu em um estudo sobre Cortázar, chamado ‘Encontro com um narrador’, que esse estranhamento nas histórias “está na raiz de uma busca poética”. Desse modo, estranhar é tomar algo como desconhecido: abandonar aquilo que é sabido para reconstruir o conhecimento.

Dois exemplos: Cortázar dá instruções para subir uma escada ou dar corda em um relógio como se nunca tivesse visto esses objetos. O jogo de destruir e reconstruir o sentido surge assim como um caminho para despertar a consciência das coisas para as quais estamos cegos, como a disponibilidade para o outro.

O livro desperta sentimentos; seus textos aproximam humor, escárnio, poesia, melancolia e imagens fantásticas. Cortázar é considerado mestre do ‘realismo fantástico’, gênero contaminado pelo surrealismo e que emergiu após a Segunda Guerra Mundial, vislumbrando a falta de fronteiras entre o mundo interior e exterior. As expressões doentias e obsessivas que surgem nas expressões do fantástico permitem a transcendência para o outro lado da vida, aquele que só fica em nossos pensamentos nunca revelados, porque são mágicos e estão fora do padrão de comportamento social.

 

Histórias de cronópios e de famas,

Julio Cortázar, tradução de Glória Rodríguez, editora Civilização Brasileira, RJ, 128 págs.

Foto: Divulgação

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