Saia justa para o ‘politicamente correto’

Twain pesquisou dialetos dos negros para escrever seu romance

A principal obra do escritor e humorista norte-americano Mark Twain (1835-1910), o romance ‘As aventuras de Huckleberry Finn’, ficou mais acessível ao leitor brasileiro com duas edições, pela BestBolso e pela L& PM Editores, que trazem novas traduções, pretendendo-se mais fiéis ao texto original em inglês do que as publicações anteriores, com base na tradução de Monteiro Lobato (1882-1948).

O texto de Twain, publicado em 1884, é considerado inaugural da literatura moderna nos Estados Unidos e foi fundamental, por exemplo, entre as influências do escritor Ernest Hemingway (1899-1961). A história de Twain narra a trajetória de dois garotos em fuga, navegando sobre as águas do rio Mississipi na época em que o país via sua identidade nascer entre quase 1 milhão de mortes da Guerra da Secessão, quando os estados do Sul e do Norte se enfrentaram por conta de suas diferenças econômicas e culturais.

Para escrever, Twain se transfigurou em Huckleberry Finn, um garoto semi-alfabetizado que narra suas aventuras ao lado de Jim, um escravo fugido pelo qual sua proprietária oferece 300 dólares de recompensa. Huck Finn e Jim seguem o curso do rio em sua jangada, descansando em bancos de areia e construindo uma relação de amizade que coloca pelo avesso o mundinho aristocrático dos americanos.

Isso, no entanto, não é feito sem uma grande dose de polêmica. Twain, ao mesmo tempo, é acusado de racista, de usar deliberadamente a palavra ‘negro’, que aparece mais de 200 vezes no livro. A linguagem de Twain é controversa ainda hoje – no início deste ano, a editora americana NewSouth Books substituiu a palavra ‘negro’ por ‘escravo’ em uma nova edição da obra.

Para o blogueiro Milton Ribeiro, que escreve sobre literatura, música e cinema, a acusação de racista é uma “inverdade ficcional”, já que quem usa a palavra é Huck, o narrador, e não Twain propriamente. “O que os moralistas não notaram é que Huck ama Jim, quer vê-lo livre e faz tudo para isso”, afirma Ribeiro em seu blog (http://miltonribeiro.opsblog.org/).

No capítulo 32 do livro, há um trecho especialmente emblemático da polêmica, em que o narrador responde sobre um acidente em um barco. “Alguém se feriu”, pergunta tia Sally. “Não senhora, matou um negro”, responde Huck Finn, ao que a outra retruca: “Bem, que sorte, porque às vezes pessoas ficam feridas”.

No contexto do livro, o leitor percebe que Twain reinventa a linguagem, como depois foi tão comum entre os modernistas, para construir a realidade de cada personagem e ao mesmo tempo desbravar novos caminhos para a literatura. Huck e Jim se constituem pela linguagem falada, que reflete as diferenças sociais entre brancos e negros naquele momento histórico.

Twain coloca uma nota explicativa no início em que afirma que as expressões coloquiais de linguagem não são obra de sua imaginação, mas resultado de incansável pesquisa dos dialetos dos negros do Missouri e de outras regiões.

 

Foto: Divulgação
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4 pensamentos sobre “Saia justa para o ‘politicamente correto’

  1. Que excelente texto. já Rouba-rtilhando

    Uma pena que isto aconteça com muitos escritores, as editoras vem e arrancas as palavras e mudam por outras. isto é um crime!!!!!

    • Também acho. Penso que as editoras deveriam, sim, deixar o texto tal como foi escrito, respondendo seu autores, criminal e civilmente, pelos possíveis desvios, que, vez ou outra, ocorrem.

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