Obra derruba limite entre conto e novela

Cícero Belmar: personagens excluídos e sentimentos primitivos

O texto de orelha é útil para dar um panorama sobre o livro que se deseja ler, mas deixar essa leitura de lado e ir direto ao que interessa permite ao leitor o acesso à própria ‘voz’ da narrativa, com todas as surpresas que ela traz. Foi o que aconteceu comigo ao ler ‘Aqueles livros não me iludem mais’, do escritor e jornalista pernambucano Cícero Belmar, que é autor também dos romances ‘Rossellini amou a pensão de Dona Bombom’ (2008) e ‘Umbilina e sua grande rival’ (2001).

A princípio o pequeno livro parecia uma coleção de contos. Na primeira história, Nicácio, um carregador de papel velho que desafia o trânsito com sua carroça, é abordado por uma madame aos prantos, que lhe dá uma quantidade enorme de livros para vender a peso, desfazendo-se da biblioteca do marido por vingança.

Depois, o autor envereda pela história de um travesti que vive em uma ponte com sua cadelinha chamada Bina, e na sequência mostra a estranha vida de um empalhador de animais, que cada vez mais deseja empalhar animais vivos e quem sabe até uma pessoa.

O perfil de um livro de contos fica assim consolidado para o leitor, mas na quarta história essa noção começa a desmoronar. O autor cruza os destinos do travesti e do empalhador e o leitor começa a se perguntar se por acaso não está diante de uma novela, gênero intermediário entre o conto e o romance.

A pergunta do leitor não persiste por muito tempo. No conto seguinte, o narrador revela seu jogo de linguagem, como se abrisse um cofre e entregasse seus valores: “São contos aparentemente independentes, mas que terminam formando uma teia, completando-se, como se fossem capítulos de uma novela, com personagens de comportamentos estranhos, asquerosos, insuportavelmente cruéis, cheios de sentimentos primitivos da natureza humana”, afirma.

Mas quem afirma isso não é Belmar, e sim Elvira, uma personagem que é escritora e que estaria fazendo um livro chamado ‘O amor é escatológico’. Belmar cria assim um novo plano ficcional para fazer sua revelação, como se estivesse novamente fingindo esconder o livro. Essa oscilação entre ficção e prosa torna-se interessante porque desmascara nossa ingenuidade de achar que a identidade de uma obra com um gênero produz algum conhecimento. Até mesmo a distinção entre literatura e crítica fica abalada no livro de Belmar.

Ao longo das páginas, o leitor percebe também que os livros jogados fora na história inicial são o combustível dos conflitos que se armam gradativamente. Isso tem uma razão de ser, afinal, mais do que objetos de culto esquecidos na estante, livros são espelhos da alma, que se afirma em sua duplicidade, entre o humano e o bestial. As personagens de Belmar, excluídas do mundo socialmente aceito, são um resgate dessa perspectiva que preferimos evitar.

 

Aqueles livros não me iludem mais,

Cícero Belmar, editora A Girafa, SP, 2011, 79 págs.

Foto: Aguinaldo Leonel

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Um pensamento sobre “Obra derruba limite entre conto e novela

  1. Minha gente Boa Noite

    Quem poderia me arrumar o contato desse grande escritor “Cícero Belmar” ? Estou interessada pelo um dos textos teatral dele e preciso urgentemente entrar em contato com ele para saber de seus direitos autorais.

    No aguardo de alguma LUZ rsrsrsrs.

    Sarah Lima

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