Cinismo em uma vida de prazer e decadência

Fitzgerald foi um escritor preocupado com a influência do dinheiro nas relações humanas

As transformações culturais da década de 20 contra o pensamento conservador e a herança da Primeira Guerra Mundial, que se traduzia em um vazio existencial, são os traços que marcaram os jovens da ‘Era do Jazz’, retratada pelo escritor norte-americano Francis Scott Fitzgerald (1896-1940) no romance ‘Os belos e malditos, o retrato de uma geração’, de 1922.

Esse é o segundo livro de Fitzgerald, que se notabilizou com ‘O Grande Gatsby’, de 1925, seu terceiro romance; sua história inaugural é ‘Este lado do paraíso’, de 1920.

Fitzgerald é talvez o mais famoso escritor norte-americano do século 20, representante genuíno da “geração perdida”, uma expressão criada pela escritora, poetisa e feminista Gertrude Stein (1874-1946) para designar as loucuras daquela época, sua tendência para excessos de prazer, bebedeiras que burlavam a Lei Seca, festas e decadência.

No centro de ‘Os belos e malditos’ está o casal de jovens formosos Anthony Patch e Gloria Gilbert, que se entregam à vida de prazeres, um caminho que entra em crise de dignidade quando a segurança que o dinheiro proporciona fica abalada.

Patch é um aspirante a escritor, alguém que não trabalha, ex-aluno de Harvard. Ele vive da renda de seus investimentos e aguarda o momento de receber uma grande herança de seu avô. Gloria é uma garota independente, mimada, com tendência feminista e também de família conservadora, filha de um executivo, alguém que segundo o narrador tinha ideias de 20 anos antes.

A narrativa é densa e monótona, mas tem a seu favor o aspecto autobiográfico. Fitzgerald escreveu a história de um casal de comportamento inconsequente em Manhattan, retratando com ironia os valores da sociedade que ele próprio frequentava. O livro tem assim uma força que dá realismo aos personagens. A identificação do escritor com seus personagens é um processo presente também em outras obras do autor.

O dinheiro contamina as relações entre as pessoas, cria um ambiente de cinismo que permeia a história. O casal busca o momento de receber a grande herança do avô de Patch, mas quando ela vem a beleza de Gloria começa a se desvanecer. É como se o desejo cumprisse seu destino, deslocando-se para outro lugar, devolvendo o sentimento de vazio.

O tema do dinheiro surgiu também na peça ‘O vegetal’, que Fitzgerald escreveu em 1923, e dominou sua produção pelos 15 anos seguintes. O escritor especulava sobre as transformações, os poderes e ilusões que o dinheiro cria, e também sobre os dilemas que o amor pode colocar frente às obrigações demandadas pelo dinheiro.

 

Os belos e malditos, o retrato de uma geração,

F. Scott Fitzgerald, tradução de Waltensir Dutra, Editora BestBolso, RJ, 2011, 415 págs.

 

Foto: Divulgação

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