Clarice especula sobre o mistério da vida em ‘A paixão segundo G.H.’

Em homenagem aos 91 anos de Clarice Lispector, republico a resenha de um livro marcante:

Uma dona de casa de classe média alta despede a empregada. Depois, ao fazer a limpeza do quarto de sua ex-assistente, ela se depara com um desenho a carvão na parede, que mostra um homem, uma mulher e um cão. Intrigada com a significação do desenho, a mulher começa então a procurar sinais do que se passara ali durante os seis meses em que mantivera a empregada. Ela abre o armário e encontra uma barata já prestes a sair, mas a divide em dois, golpeando com a porta. O líquido branco do interior da barata começa a escorrer.

Clarice: sentido purificador na consciência da matéria viva

Chocada com essa experiência, a mulher mergulha em uma crise de identidade até que prova o sabor da gosma do inseto, representando nesse ato a morte e o amor.  A partir daí, ela experimenta uma transformação, um renascimento, como que num paralelo da paixão de Cristo, que a torna mais consciente de si, de suas limitações e da importância do outro na vida de cada um.

Esse é o roteiro de ‘A paixão segundo G.H.’, de 1964, obra fundamental de Clarice Lispector, que voltará à  tona nos próximos dias, já que a escritora será homenageada pela VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Pliporto), que se realizará em Olinda de 12 a 15 de novembro e poderá ser acompanhada pela internet.

Nas palavras de Clarice, o calvário de G.H. adquire o caráter de uma experiência universal – a transformação causada pelo contato com a gosma é só uma possibilidade entre tantas outras que levam ao mesmo efeito, porque são experiências de contato com o poder do ‘real’, ou da morte. Isso é o que acontece, por exemplo, com pessoas que saem ilesas de acidentes, que chegam perto da morte. Os grupos indígenas e urbanos que bebem ayahuasca também procuram contato com as representações da morte para alcançar seus efeitos transformadores.

A interação com o que Clarice chama de “coisa viva” é uma forma de se destacar do senso comum, ou da zona de conforto que cada um de nós constrói para se sentir dominando o mundo. Essa é uma ilusão da civilização, uma consciência limitada, que encobre o que de fato move a vida. Clarice sai em busca do conhecimento do ser, de suas raízes fora do mundo organizado pelos sentidos dados pela linguagem.

No texto, a escritora faz referência ao esgotamento da linguagem, ao deserto de sentidos que significa a experiência de comer a matéria viva. Para G.H., o deserto é um lugar onde não queremos estar e que está escondido sob a nossa humanidade. “Ao me ter humanizado, eu me havia livrado do deserto”, escreve.

O escritor e crítico Assis Brasil destaca que o processo de Clarice no livro é filosófico, e tem um caráter existencialista. “Comer a barata tem o sentido duplo de comer a essência e de flagelação”, afirma, encontrando nesse ato um processo de purificação que se desenvolve em torno da revelação de uma ideia.

Veja como G.H. se sente nos momentos preliminares ao grande ato: “Mas meu medo não era de quem estivesse indo para a loucura, e sim para uma verdade – meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse a não querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata”.

Ou então neste trecho:

“A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima.

Vou te dizer: é que eu estava com medo de uma certa alegria cega e já feroz que começava a me tomar. E a me perder.

A alegria de perder-se é uma alegria de sabá. Perder-se é um achar-se perigoso. Eu estava experimentando naquele deserto o fogo das coisas: e era um fogo neutro. Eu estava vivendo da tessitura que as coisas são feitas.  E era um inferno, aquele, porque naquele mundo que eu vivia não existe piedade nem esperança.

Eu entrara na orgia do sabá. Agora sei o que se faz no escuro das montanhas em noites de orgia. Eu sei! Sei com horror: gozam-se as coisas. Frui-se a coisa de que são feitas as coisas – esta é a alegria crua da magia negra. Foi desse neutro que vivi – o neutro era o meu verdadeiro caldo de cultura. Eu ia avançando e sentia a alegria do inferno.”

A paixão segundo G.H., Clarice Lispector, editora Rocco, RJ, 2009, 179 págs.

Para se informar sobre a Fliporto: www.fliporto.net.

Foto: Cláudia Anduja/Reprodução

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