História contada também tem valor literário

Antonio Candido estudou a oralidade na formação da cultura

O poeta Ferreira Gullar escreveu na Folha de S.Paulo, em 4 de dezembro, um artigo com o título ‘Preconceito cultural’, no qual defendia a ideia de que hoje não faz sentido falar em literatura negra no País. A certa altura, no furor das palavras, o poeta ganhador do prêmio Jabuti, o principal da indústria do livro, afirmou:

“Falar de literatura brasileira negra não tem cabimento. Os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura. Consequentemente, foi aqui que tomaram conhecimento dela e, com os anos, passaram a cultivá-la”.

Essa afirmação provocou a resposta imediata do escritor Francisco Maciel, autor do romance ‘O primeiro dia do ano da peste’ (Estação Liberdade, 2001), que lembrou que a literatura não se limita apenas ao que está escrito, mas é uma expressão que surge, antes de tudo, com a fala e, assim, com as histórias orais.

Maciel citou o livro ‘Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica-Os precursores’, organizado por Eduardo de Assis Duarte (editora da UFMG, 2011), para defender a ideia de que os negros sempre tiveram sim sua literatura, como qualquer povo, qualquer grupo social, pois o que parece inegável é que a arte é algo estritamente ‘humano’. Esse livro analisa, por exemplo, a questão dos contos da cultura nagô, que surgiram da tradição oral.

Não faltam exemplos de estudos sobre oralidade e literatura e talvez Gullar tenha sido traído pelo esquecimento ao destilar seu preconceito, quem sabe gozando com o fato de se alinhar ao culto do conservadorismo – isso é uma coisa que a fama tem feito com as pessoas.

O professor de literatura francesa na Universidade de Paris Jean Bellemin-Noël afirma no livro ‘Psicanálise e Literatura’ (editora Cultrix, 1983): “Em suma, é só com alguma coisa como literatura (mesmo que tenha sido oral nas eras e civilizações sem escrita) que o homem se interroga sobre si mesmo, sobre seu destino cósmico, sua história, seu funcionamento social e mental”.

Parece claro que onde houver uma indagação, uma projeção de ideia, uma construção com palavras, escritas ou não, mas com riqueza de sentidos, haverá literatura. A oralidade é algo fundamental na cultura brasileira, porque foi um instrumento da formação do nosso povo.

O professor Antonio Candido conta no livro ‘Literatura e Sociedade’ (Companhia Editora Nacional, 1975) que na época do Império no Brasil, no século 19, a verdadeira difusão das obras literárias se dava por meio da fala. “A ação dos pregadores, dos conferencistas de academia, dos glosadores de mote, dos oradores nas comemorações, dos recitadores de toda hora, correspondia a uma sociedade de iletrados, analfabetos ou pouco afeitos à leitura. Deste modo formou-se, dispensando o intermédio da página impressa, um público de auditores, muito maior do que se dependesse dela e favorecendo, ou mesmo requerendo no escritor certas características de facilidade e ênfase, certo ritmo oratório que passou a timbre de boa literatura e prejudicou entre nós a formação de um estilo realmente escrito para ser lido”.

Talvez a receptividade que o brasileiro tem com a telenovela se explique em parte por esse viés histórico, essa identidade quase compulsória com a obra falada, que se afirma na falta do preparo para as letras. Formar leitores, sobretudo com espírito crítico, ainda é um desafio para escritores e educadores no País.

(Foto: www.imagens.usp.br)

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