Rubem Alves e o poder mágico das palavras

Rubem Alves: inspiração para despertar novos conhecimentos no leitor

As palavras têm poder mágico. Mas isso não é mera força de expressão. É algo que acontece na realidade. As palavras que a mãe dirige ao filho, por exemplo, podem marcá-lo por toda a vida. Na religião, espera-se que elas conduzam a ação do sujeito, sem o quê não haveria razão para rezar. Os efeitos que as palavras provocam no ser humano têm a ver com ‘transformação’.

“O poder das palavras não está nelas mesmas. Está no jeito como as lemos”, afirma o escritor e psicanalista Rubem Alves, no livro ‘Palavras para desatar nós’, uma reunião de 48 crônicas publicadas em jornais, revistas e na internet, lançada este mês.

Alves é autor de mais de 50 títulos, incluindo livros infantis e sobre educação. Na nova obra, agradou a leveza com que ele trata de temas que o público toma por áridos, difíceis, como psicanálise, filosofia, obras clássicas como a ‘Odisseia’, de Homero, ou ainda os sentimentos mais escondidos, como a inveja e o medo da morte.

As crônicas de Alves representam a procura de uma conversa na qual o leitor possa descobrir algo novo sobre si mesmo – daí o sentido do título – e por isso têm um caráter de franqueza: “As pessoas que me procuraram nos anos em que exerci a psicanálise eram todas diferentes e tinham queixas diferentes. Mas debaixo das múltiplas pequenas queixas havia uma única grande queixa: queriam ter alegria”.

Ou ainda: “O que escrevo é melhor do que eu. Finjo ser um outro. O texto é mais bonito que o escritor”, afirma ele para desmascarar o mito de que o escritor é parecido com sua obra.  Ele faz isso resgatando a história de um encontro marcado entre Fernando Pessoa e Cecília Meireles, ao qual Pessoa não compareceu, enviando um mensageiro com uma desculpa esfarrapada. Alves encontra a razão do desencontro no texto ‘Livro do Desassossego’, assinado pelo heterônimo Bernardo Soares, onde afirma: “Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver”.

Os textos soam também como breves lições que nos fazem pensar. Na pequena crônica ‘As lâmpadas e a inteligência’, ele brinca com a ideia quase banal de comparar as duas coisas. “As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam. As inteligências valem pelas cenas que iluminam. Há inteligências de QI 200 que só iluminam esgotos e cemitérios”.

Outra ideia presente em Alves é que literatura e psicanálise são campos do conhecimento que se mantêm próximos, porque buscam um saber incerto sobre o mesmo objeto: os desejos e aflições da alma. “Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não sonhamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar”.

 

Palavras para desatar nós,

Rubem Alves, editora Papirus, Campinas (SP), 2011, 176 págs.

 

Foto: Divulgação
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Um pensamento sobre “Rubem Alves e o poder mágico das palavras

  1. Republicou isso em e comentado:

    Em homenagem a Rubem Alves, que morreu neste sábado, 19, o blog Livros & Ideias republica texto sobre o trabalho do escritor:

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