Contra a corrente do pensamento conservador

Moore no festival de cinema de Veneza, em 2009

As histórias que incomodam os poderosos e a opinião dominante nos Estados Unidos estão mais uma vez no alvo do cineasta e jornalista Michael Moore, com o lançamento da autobiografia ‘Adoro problemas – histórias da minha vida’. Esse é o sexto livro de Moore, mas seu verdadeiro sucesso no Brasil ocorreu no cinema com documentários como ‘Tiros em Columbine’ (2002) e ‘Fahrenheit 11 de setembro’ (2004).

O livro resgata momentos da infância de Moore e ao mesmo tempo faz uma releitura dos episódios polêmicos, das enrascadas em que ele se meteu por conta de uma postura crítica incontida, que o tornou emblema da desobediência civil. Seus temas são questões que para a grande mídia parecem ‘normais’: as fraudes eleitorais que levaram George W. Bush à presidência, a ganância das multinacionais, os abusos dos planos de saúde, a irresponsabilidade de governos e empresas no trato do meio ambiente e tantos outros que se escondem sob o tapete do senso comum.

Moore reúne 24 crônicas, e como sua especialidade é mudar o ponto de vista das coisas o volume começa com o epílogo, um relato sobre a repercussão de sua atuação na noite do Oscar, quando recebeu a estatueta pela direção de ‘Tiros em Columbine’. Era março de 2003 e naquele momento os Estados Unidos invadiam o Iraque, com 70% de aprovação popular.

Em um ato de desatino, Moore usou então o discurso do prêmio para protestar contra a guerra e sua participação no Oscar virou um pandemônio. Um desejo de matar Moore se espalhou pelo país: “Estou pensando no assassinato de Michael Moore, e me pergunto se eu mesmo posso matá-lo ou se preciso contratar alguém para fazer isso…”, afirmou na TV Glenn Beck, comentarista conservador do canal Fox News.

Ao desbravar as páginas de ‘Adoro problemas’, o leitor perceberá que Moore foi modelado desde a infância para ser alguém politizado e crítico, sobretudo porque pertence a uma família de operários no Michigan, Norte do país, que prezava a história, os livros, a cultura e a luta pelas causas sociais.

É como se Moore assumisse o legado do poeta e escritor inglês D. H. Lawrence (1885-1930), quer era voltado a temas controversos. Moore cita uma frase célebre do escritor, que mexe com a identidade de seu povo: “A alma americana essencial é dura, isolada, estoica e assassina”.

O exercício de Moore, escrevendo ou filmando, é assim o de revelar essa alma que se esconde em uma cultura de valores absolutos. Ao navegar contra a corrente, Moore torna-se um personagem de si mesmo, e também uma espécie de terapeuta indesejado, cuja presença frequentemente é motivo para manifestação de histeria, já que tantas vezes ele é reconhecido publicamente em situações em que as pessoas o rejeitam.

Adoro problemas – histórias da minha vida,

Michael Moore, tradução de Carlos Szlak, editora Leya/Lua de Papel, SP, 2011, 344 págs.

 

Foto: Nicolas Genin/Divulgação

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