E o lobo da estepe mordeu Clarice Lispector

Clarice Lispector foi ‘devota’ da obra máxima de Hermann Hesse

Outro dia, lendo trechos ao acaso da mais importante biografia de Clarice Lispector, chamada ‘Uma vida que se conta’ (editora Edusp), escrita pela professora de literatura na USP Nádia Battella Gotlib ao longo de 20 anos de pesquisa, encontrei o que para mim representou um pequeno tesouro, umas poucas páginas sobre influências literárias de Clarice na juventude, destacando as marcas deixadas pelo romance ‘O lobo da estepe’, do escritor alemão naturalizado suíço Hermann Hesse (1877-1962).

Chamo essa história de ‘pequeno tesouro’ porque ela é um dos primeiros atos na formação da grande escritora, apontando o caminho que seria seguido, seu rumo literário. A professora Nádia resgata uma entrevista de Clarice a Leo Gilson Ribeiro, do Jornal da Tarde, em fevereiro de 1969, em que afirma: “Depois desse livro, adquiri confiança daquilo que deveria ser, como queria ser e o que deveria fazer”.

Em resposta a uma pergunta do escritor Affonso Romano de Sant’Anna sobre a influência de Hesse, Clarice disse: “Isso eu li aos 13 anos, me deu uma febre danada”.  E na crônica ‘O Primeiro Livro de Cada uma de Minhas Vidas’, Clarice indica a razão de seu encanto: “E eu, que já escrevia pequenos contos, dos treze aos catorze anos fui germinada por Hermann Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura”.

‘O lobo da estepe’ é a obra mais conhecida de Hesse, lançada no período entre guerras, em 1927, em um momento político na Europa em que o senso comum cultuava a guerra, algo a que Hesse se opõe frontalmente, atacando os valores da pequena burguesia na trajetória de lobo da estepe de Harry Haller, o protagonista da história.

O livro começa como um mergulho no mundo interior de Haller, um intelectual ligado às artes, à literatura e ao jornalismo. Depressivo e com tendência ao suicídio, Haller alimenta uma visão marginal do mundo, sempre contra a corrente predominante de pensamento, contra a hipocrisia e os falsos valores. O lobo da estepe é a figura de ‘outro’ no mundo interior de Haller, um duplo de sua personalidade, uma força que se manifesta fora do domínio da consciência.

A maneira como Hesse investiga a personalidade de Haller indica que na verdade o escritor está em busca de algum conhecimento para a alma humana, esse ‘objeto’ que é incerto e escapa dos domínios da ciência. É por essa razão, aliás, que o romance é também um texto de cunho psicanalítico, em que Hesse deixa patente a influência da obra de Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise. Ao mergulhar no romance, o leitor percebe que a personalidade é uma multiplicidade de personagens e o lobo da estepe é apenas um deles.

O lobo da estepe,

Hermann Hesse, tradução de Ivo Barroso, editora BestBolso, 2009, 252 págs., R$ 14,90.

Foto: Divulgação

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2 pensamentos sobre “E o lobo da estepe mordeu Clarice Lispector

  1. Fui mordido por ambos e nunca mais fui o mesmo. Aliás, quanto a Clarice ela ainda continua me mordendo, mas quanto mais me morde mais me reencontro com o que não sou e me faz reaparecer outros eus.

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