Anedotas do mundo italianinho em São Paulo

Alcântara Machado se inspirou na vida dos cortiços

A influência da cultura italiana na miscigenação do povo da cidade de São Paulo no início do século 20 é mostrada na televisão vez ou outra, mas sempre de um ponto de vista único, carregado de uma linguagem sem variações.

No caso da literatura, o traço singular dos italianos naquela época está registrado com humor nas 11 crônicas de ‘Brás, Bexiga e Barra Funda’, livro de estreia do escritor e jornalista António de Alcântara Machado (1901-1935), ligado à primeira fase do modernismo.

O título é de 1927 e com ele Alcântara Machado fez fama, trabalhando em diversas redações e em parcerias com Mário de Andrade e Oswald de Andrade – com este último, ele fez a ‘Revista de Antropofagia’, um dos expoentes da cultura modernista.

Para o escritor João Antônio (1937-1996), que é mestre da crônica urbana, “a obra ficcional de Alcântara Machado continua a ser a melhor visão urbana já obtida sobre a década de 1920 e uma das mais válidas penetrações que o escritor urbano brasileiro já desenvolveu nesse território específico”, afirma em um texto chamado ‘Literatura urbana: isso existe?’.

João Antônio diz que Alcântara Machado poderia ter explorado mais o potencial dramático das histórias, mas sem questionar a contribuição de sua obra para a literatura urbana no País, ao lado da produção de Mário de Andrade. Esse gênero literário é uma vertente que passa por alguns períodos de falta de expressão na história. Isso aconteceu por conta do predomínio da abordagem regionalista, que explorava a verve do homem nordestino, e da linha de investigação psicológica, que chegou a seu auge com Clarice Lispector.

Ao estilo de um gozador bonachão, Alcântara Machado se inspira na vida dos cortiços e do futebol na cidade e monta retratos caricatos, que reduzem a tragédia ao cômico, como a história de Gaetaninho, que morre atropelado por um bonde depois de sonhar com a morte da tia.

O espírito modernista da obra está na forma como a linguagem é articulada. As crônicas são mostradas não com uma visão abrangente, mas por fragmentos, recortes que o autor busca na vida cotidiana. As histórias são introduzidas não por um prefácio ou um prólogo, mas por um ‘artigo de fundo’ no qual o escritor fala de suas motivações. “Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias”, afirma.

Tipos que Alcântara Machado identifica em suas crônicas até hoje se reproduzem na sociedade. Por isso, alguns de seus personagens são protótipos de personalidades que ocupam o imaginário popular, como por exemplo, as namoradas dos jogadores de futebol. No livro, o conto ‘Corinthians (2) vs. Palestra (1)’ explora a ação contraditória e conveniente de Miquelina, que namora o jogador Rocco, do Palmeiras, mas o troca por Biagio, do time adversário, por causa do resultado no placar.

Brás, Bexiga e Barra Funda,

António de Alcântara Machado, editora Imago, RJ, 2005, 99 págs.

Foto: Divulgação

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