Fonseca inverte os dados do romance policial

Fonseca influencia as novas gerações de escritores

Com a proliferação dos festivais literários, a imagem do escritor se tornou tão importante quanto sua obra. A profissão passou a seguir o receituário de marketing das editoras, em que a imagem é condição para o sucesso da produção do autor.

Mas é óbvio que para o escritor a relação entre obra e imagem não é algo fácil, ou resolvido. Muito menos para Rubem Fonseca, que com ironia e genialidade aborda essa questão no conto ‘Romance negro’. Segundo Karl Erik Schollhammer, professor de literatura na PUC Rio e autor do livro ‘Ficção brasileira contemporânea’ (editora Civilização Brasileira), ‘Romance negro’ é um texto chave para conhecer o escritor.

Fonseca renovou o cenário literário brasileiro nos anos 60, quando publicou seu primeiro trabalho, a antologia de contos ‘Os prisioneiros’. Com um estilo realista e inspirado no submundo do crime e da violência, trazendo ao público o ponto de vista de prostitutas, bandidos e outros segmentos excluídos da sociedade, a obra de Fonseca foi batizada de ‘brutalismo’. Desde então, ele é um dos escritores que mais influencia as novas gerações.

Em ‘Romance negro’, Fonseca revisita o conto ‘Assassinatos na rua Morgue’, do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), que com esse texto fundou o gênero do romance policial moderno, que desenvolve a narrativa com base na investigação de vestígios do crime para descobrir o assassino. Esse método reforça a ideia de que não existe crime perfeito, já que é impossível apagar todos os rastros.

O protagonista de Fonseca é um escritor norte-americano, chamado Peter Winner, que participa de um festival literário internacional na França, dedicado ao romance e ao filme policial. Ao falar ao público, Winner realiza uma inversão da estrutura do gênero, desafiando o ouvinte: “Neste crime perfeito, todos saberão logo quem é o criminoso e terão de descobrir qual é o crime e quem é a vítima”, afirma, apresentado-se em seguida como autor do tal crime.

Esse jogo dentro da estrutura do romance policial permite que Fonseca coloque em questão o conflito entre a imagem do escritor e a obra, o que acontece também sob influência do leitor, que no conto toma o lugar do escritor para dar continuidade à sua produção. Mas isso não é tudo. O texto de Fonseca é híbrido entre prosa e ficção, sendo, além de uma história policial, uma reflexão sobre o gênero que está no centro da narrativa, trazendo referências literárias e filosóficas, o que o torna ainda mais interessante.

 

Romance negro e outras histórias,

Rubem Fonseca, Companhia das Letras, SP, 1992, 188 págs.

Foto: Zeca Fonseca/Divulgação

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s