Reflexões no seio do movimento modernista

Mário de Andrade liderou a Semana de Arte Moderna

Por conta dos 90 anos da Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, resgatei da estante o livro ‘A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade’, uma compilação da correspondência redigida entre 1924 e 1945, até dois dias antes da morte de Mário, que foi o principal articulador da histórica semana que mudou a maneira como as artes eram produzidas no País.

A literatura registrada em cartas é conhecida como gênero ‘epistolar’ e a obra de um escritor nesse formato é chamada ‘epistolografia’. No caso de Mário de Andrade, esse gênero é fundamental para a compreensão de suas ideias, afinal, foram publicados nove volumes reunindo esses textos, que ele redigia com afinco e desprendimento.

O livro é importante também porque foi com Drummond que o escritor paulistano teve sua mais intensa troca. Na apresentação, Drummond afirma que a produção epistolar começou tão logo a dupla travou amizade: “Estabeleceu-se imediatamente um vínculo afetivo que marcaria em profundidade a minha vida intelectual e moral, constituindo o mais constante, generoso e fecundo estímulo à atividade literária por mim recebido em toda existência”.

Quando a correspondência começou Drummond contava 22 anos, era um escritor iniciante e Mário, do alto de seus 31 anos, com a bagagem da Semana de 22 e a publicação de ‘Há uma gota de sangue em cada poema’ (1917) e ‘Pauliceia desvairada’ (1922), dava conselhos ao amigo que na época morava em Belo Horizonte.

Assim, logo nas primeiras cartas, Mário analisa algumas poesias enviadas por Drummond, dando sugestões para aprimorar os textos. Esses conselhos representam um achado, porque são raros os momentos em que os escritores abrem seus segredos de composição, como, por exemplo, quando Mário sugere eliminar artigos de algumas frases para reforçar a presença do substantivo.

O livro mostra um Mário de Andrade espontâneo, de linguagem fácil, sem pretensões em seu texto, afinal, ele não tinha ambição de ver suas cartas publicadas ou, às vezes, contraditoriamente, deixava esse desejo se manifestar. Mas a decisão de publicá-las ocorreu por seu valor para o pensamento literário no País. Há muitos momentos de reflexão, e o leitor poderá entender as motivações do modernismo: “O que nós todos queremos (o que pelo menos imagino que todos queiram) é obrigar este velho e imoralíssimo Brasil de nossos dias a incorporar-se ao movimento universal das ideias”, afirma, referindo-se ao modernismo entre os artistas europeus. Mas para isso era preciso ser nacionalista, ou criar identidade com a cultura do brasileiro: “Nacionalismo quer simplesmente dizer: ser nacional. O que mais simplesmente ainda significa: Ser.”

 

A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade,

Mário de Andrade, editora Record, RJ, 1988, 272 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

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