Romance proletário com origem no sertanejo

Amando Fontes nasceu em Santos (SP), mas era de família sergipanaSe a literatura brasileira tivesse uma galeria de bons escritores que caíram no esquecimento, Amando Fontes (1899-1967) certamente seria destaque entre eles. Referência para a história da literatura durante o modernismo, Fontes teve sua estreia com o romance ‘Os Corumbas’, de 1933, uma obra que aponta a produção nordestina para horizontes diferentes da narrativa que predominava naquele período, marcada pelo regionalismo focado no homem e nos cenários do sertão.

‘Os Corumbas’ trouxe ao público as agruras de uma família, também sertaneja, que se transfere para Aracaju, capital de Sergipe, com a esperança de uma vida longe da miséria da seca. O casal Geraldo Corumba e Josefa, mais cinco filhos, dos quais quatro são mulheres, o que na época era visto como uma “desgraça”, passam a sobreviver com apoio do trabalho árduo dos filhos como operários de uma tecelagem. Naquele tempo ainda não existiam os direitos trabalhistas.

A economia da cidade era impulsionada por duas empresas têxteis, em torno das quais Fontes constrói o universo dos personagens. Mas as tecelagens são apenas o gancho para o escritor ter o contexto dos trabalhadores de Aracaju. A narrativa em terceira pessoa e de linguagem realista persegue os dramas que cada Corumba enfrenta.

Fontes compõe, assim, um romance proletário que explora a desagregação da família no processo de mudança do campo para a cidade. O conflito entre os valores tradicionais e os que emergem no meio urbano marca a relação entre pais e filhos e acaba por decretar a morte ou a separação.

Geraldo e Josefa seguem seu destino perdendo um filho a cada vez. É um romance triste, sem ironia, que não se distancia da vontade de mostrar um retrato da miséria entre os trabalhadores. Talvez por isso o escritor tenha sido esquecido, já que seu discurso coloca o leitor diante da realidade do histórico processo de exclusão no País.

Nem mesmo os trabalhadores gostariam de se verem retratados como nas páginas de Fontes. A história de Pedro, o filho do casal, é traçada por sua atuação como líder em uma greve da categoria, demandando pagamento de horas-extras por períodos noturnos. Como a resposta dos patrões fosse negativa, o comando de greve partiu para a violência contra os fura-greves, pegando-os em emboscadas pelas ruas.

A narrativa não tem sinais de desgaste no tempo, ela é atual e envolvente. Apesar de pouco lido, Fontes permanece um escritor imortal, que encontrou em ‘Os Corumbas’ uma resposta para o que poderia ser uma grande tragédia com expressão literária. Sua contribuição fundamental é para o desenvolvimento da literatura urbana no País, que por essa época tinha poucos representantes.

 

Os Corumbas,

Amando Fontes, editora José Olympio, 13ª edição, RJ, 1979, 172 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

Ilustração: bico-de-pena de Luís Jardim

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