Estética de Jorge Amado divide a crítica

Por Saulo Lance*

Jorge Amado: centenário de seu nascimento será comemorado em agosto

A história do Brasil é permeada pela formação de grupos identitários paralelos ao Estado, que se constituem como reação à violência e exclusão emanadas pelo poder oficial e como resgate da identidade ameaçada, entre outros fatores. Os quilombos no tempo da colonização, o cangaço no sertão nordestino nos séculos 19 e 20, a malandragem no contexto do Rio de Janeiro na metade do século 20, a revolta de Canudos na Bahia, enfim, não faltam exemplos desse traço emblemático da cultura do País, que atualmente se remodela por meio do crime organizado.

Essas organizações têm como ponto central um código interno de regras que exige de seus participantes, marginalizados pela sociedade, lealdade e obediência cega à liderança estabelecida. Na literatura, há muitos exemplos de obras que exploram o estado paralelo. O romance ‘Capitães da areia’, de Jorge Amado, publicado em 1937, é um deles.

A obra é ambientada em Salvador, Bahia, nos anos 30, onde ocorria uma epidemia de varíola, gerando discriminação, um ambiente hostil e, no caso de duas personagens, Dora e Zé Fuinha, a perda dos familiares e o abandono. Outro problema era a polícia, que tinha um papel coercivo grande, intensificando a hostilidade do meio e perseguindo as crianças como se fossem adultos. Pedro Bala, o chefe dos capitães, sobrevive nesse ambiente hostil, sendo que seu pai, do qual não tem muitas informações, foi morto num confronto entre operários e a polícia.

Os críticos da obra fazem leituras opostas. Há aqueles que ressaltam seu viés revolucionário, afirmando uma defesa da postura comunista de seu autor, lembrando fatos como a queima de 808 exemplares do romance em praça pública, em 1937, às vésperas do Estado Novo, e a atuação de Amado como militante no partido comunista, o PCB. Pedro Bala, o protagonista, repete o destino do pai no que diz respeito a seu engajamento social, tornando-se líder entre sua comunidade, o que chegou a ser interpretado como apologia ao comunismo.

Outros, no entanto, afirmam a existência de uma imagética apelativa e populista, atacando o autor quando ele se diz “um baiano romântico e sensual”, apoiando tal argumentação na ausência de formalidade, característica de sua escrita, e na escolha dos personagens. Convivem na obra duas possibilidades de leitura: “uma abordagem ancorada primeiro na tradição popular nordestina – a literatura de cordel, os cantadores – e, depois, na estética do realismo crítico e da denúncia”, como afirma Eduardo Assis Duarte, professor universitário, jornalista e crítico literário, e de uma produção mais ligada ao regionalismo, com o pitoresco e a caracterização estereotipada, como afirma Alfredo Bosi, professor universitário, historiador da literatura brasileira e crítico.

Para os que encaram a obra da primeira forma, ela é uma tentativa de desmistificação do estado paralelo. Portanto, a partir da apresentação de figuras obscurecidas pela sociedade, já que enquadradas sob a designação genérica de “delinquentes”, o autor opera uma torção de valores significante. É a partir da exploração do mundo de cada capitão da areia que seus motivos e suas angústias, estas muito próximas às do “cidadão de bem”, contornam e dão sentido à violência praticada. Para os capitães, o governo e as leis são a organização comunitária do trapiche que vivem e a liberdade é encontrada nas ruas por meio de tal organização que garante proteção e senso comunitário.

A questão vista por tais críticos aqui é sobre a eficácia da discriminação e da coerção em relação à marginalidade, à qual o autor responderia, mostrando que por traz dos delinquentes há um ser político e um ser de privações como qualquer outro, tendo a sociedade um papel grande na geração de tudo isso.

Os críticos que apontam para um caráter regionalista da obra afirmam que Jorge Amado “soube esboçar largos painéis coloridos e facilmente comunicáveis que lhe franquearam um grande e nunca desmentido êxito junto ao público”, como diz Bosi. Para críticos dessa leitura, é por este caráter pitoresco e por sua linguagem, que é “descuido formal a pretexto de oralidade”, que seu ingresso na televisão e teatro foi garantido, pois são apelos populistas onde há ainda a prioridade da imagem.

É claro que seu viés político não pôde ser omitido, mas aqui sua face se mostra suavemente, segundo a necessidade de cada personagem que, “vez por outra, emprestaria matizes políticos”. Porém, o aspecto central nesses personagens, dado o caráter pitoresco do regionalismo, é que eles não são de fato: são meras imagens, formas gerais dos quais se perde toda a particularidade. Dessa forma, não é a sociedade em sua organicidade o objeto analisado, como pensam os primeiros críticos citados, mas uma sociedade espelhada turvamente, genérica, estereotipada, com seres folclóricos.

Mas o fato é que com sua escrita Jorge Amado conquistou prêmios e, mais que isso, um lugar privilegiado como escritor na história, tendo incentivado grande quantidade de novos leitores, sendo este um projeto de sua trajetória. Seus temas também indicam a contemporaneidade vivida pelo autor, que escrevera no período do modernismo, sendo ele convencionalmente associado à segunda fase, entre a década de 40 e a de 50, fase marcada pelo regionalismo, a proposta crítica e o surgimento do romance urbano-psicológico, entre outras.

Teve releituras em outras linguagens como televisão, cinema e teatro, além de seus textos terem sido traduzidos em 49 idiomas. Este ano é o centenário de seu nascimento, cuja data é 10 de agosto de 1912, o que motivou a reedição de duas de suas obras, ‘O compadre de Ogum’ e um volume ampliado de ‘Navegação de cabotagem’, e a publicação de ‘Jorge & Zélia – Correspondência’, os três pela editora “Companhia das Letras”. Vale lembrar também que ‘Capitães da areia’ é um dos 13 livros exigidos para o vestibulares da Unicamp e Fuvest.

*Saulo Lance é colaborador do blog Livros & Ideias e estudante de filosofia na FFLCH-USP.

Foto: Divulgação
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s