A armadura de imagens de Mario Bellatin

Bellatin explora a decadência do culto à violência

Ao ler o romance ‘Cães heróis’, do escritor mexicano Mario Bellatin, fiquei pensando na relação das palavras com suas significações. Essa é uma questão que está presente em toda a literatura, ou pelo menos naquela que vai além do discurso óbvio, comercial e feito apenas para entretenimento.

Na obra de Bellatin, as palavras e os sentidos caminham para um universo amplo de possibilidades. O romance se torna misterioso ou enigmático pelo fato de ser tão aberto. O livro traz um subtítulo: ‘Tratado sobre o futuro da América Latina visto através de um homem imóvel e seus trinta pastores belga malinois’.

Bellatin o lançou como romance, mas sua extensão e estrutura são de conto. O livro, na verdade, tem um caráter experimental: traz uma diagramação de textos com variações no tamanho da fonte, e impressão apenas nas páginas pares.

Tudo o mais nessa edição da Cosac Naify é coberto de roxo, cor que provoca efeitos marcantes sobre a mente, sendo adotada para acalmar pessoas que sofrem de doenças nervosas ou mentais.

A narrativa se passa em uma casa de dois pavimentos habitada no andar superior por um homem imóvel, que mantém domínio sobre seus cães fazendo estranhos ruídos com sua voz. Em meio a uma atmosfera vazia e sufocante, o tal homem é assistido por um enfermeiro-treinador, que tem um caráter duplo, mas não exerce poder sobre os cães. Na casa moram também a mãe e a irmã do homem imóvel, que ficam o tempo todo classificando sacolas plásticas sem ter uma razão para isso.

O pastor belga malinois é uma raça de cão de guarda que mantém forte lealdade ao dono e pode atacar de forma cruel pessoas estranhas. É também conhecido como o melhor farejador de drogas.

Bellatin já disse em uma de suas entrevistas que sua obra é uma estrutura ou uma espécie de armadura, e por isso a significação aberta, que permite que o leitor traga o seu universo de conhecimento para completar o sentido.

Como diz o subtítulo, o romance é um tratado sobre o futuro da América Latina e, assim, a história pode não ser aquilo que se passa literalmente, a não ser pelo fato de que os cães sempre prontos para matar se colocam como metáfora.

O mapa que o homem imóvel mantém com as cidades que produzem os melhores pastores belgas no continente marcadas em vermelho soam como alerta para as sociedades que estamos construindo, calcadas no indivíduo egoísta e reacionário, sempre pronto para ignorar ou atacar o outro.

O efeito da violência que cultuamos pode ser a morte do verdadeiro espírito da existência. Pensei nisso ao estranhar a situação em que o invalido ordena que um de seus cães mate uma ave de rapina que mantinha no quarto, um animal normalmente tido como topo da cadeia alimentar.

Cães heróis,

Mario Bellatin, tradução de Joca Wolff, editora Cosac Naify, SP, 124 págs.

Foto: www.elcoloquiodelosperros.net

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