Desespero de guerra em história em quadrinhos

Episódio de traição na novela de Art Spiegelman

Esqueça a visão maniqueísta que contamina histórias sobre a Segunda Guerra Mundial, com os malvados de um lado e os inocentes de outro. É claro que essa ideia não isenta os nazistas de seus crimes, mas quando há uma guerra, o espírito que toma conta de todos é o de sobrevivência e, diante disso, os valores caem por terra.

“Alguns judeus pensavam assim: se eles dessem aos alemães alguns judeus, eles salvariam o resto. E pelo menos salvaram eles mesmos”, afirma Vladek Spiegelman ao seu filho, Artie. Ambos são personagens centrais de ‘Maus, a história de um sobrevivente’, novela gráfica, em história em quadrinhos (HQ), publicada originalmente por Art Spiegelman em 1986.

A coincidência de nomes entre autor e personagens ocorre pelo caráter biográfico da obra. Art, filho de sobreviventes do holocausto, nascido em Estocolmo (Suécia) em 1948, resgatou a trajetória dos pais judeus poloneses para desenhar um retrato do que foi a ocupação da Polônia pelos nazistas durante os anos da guerra.

O artista coloca em questão também os traumas psicológicos da guerra – ele próprio esteve internado em um hospital psiquiátrico por conta de um colapso nervoso –, a dificuldade de relacionamento com o pai e o suicídio da mãe, quando a família já morava Nova York, nos anos 60.

Ao mesmo tempo que segue o viés realista, Art constrói suas principais metáforas por meio do antropomorfismo: atribui características humanas a animais. Assim, os judeus são representados por ratos, os alemães por gatos e os poloneses como porcos.

Essas características de composição deram um resultado surpreendente, ajudando a elevar as HQs à condição de literatura. Desespero, ódio, vingança e corrupção estão entre os atos de seus personagens, aterrorizados pelo destino de Auschwitz. Por conta da obra, Art é o único cartunista que recebeu o prêmio americano Pulitzer, voltado a produções de jornalismo, literatura e música.

Em maio, o quadrinista deverá vir ao País participar do 4º Congresso de Jornalismo Cultural, em São Paulo, no Tuca, promovido pela revista Cult. Os leitores poderão conferir de perto suas ideias. Art Spiegelman é um artista que não faz concessões à sua obra. Por conta da veia crítica, focada em revelar o lado cruel e tosco da cultura, ele se afastou em alguns momentos da grande mídia, fincando pés no circuito alternativo. Isso, no entanto, não impede que ele seja celebridade. ‘Maus’, por exemplo, vendeu dois milhões de cópias nos EUA.

Maus, a história de um sobrevivente,

Art Spiegelman, tradução de Antonio de Macedo Soares, Companhia das Letras, SP, 2005, 296 págs.

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