E os muros caíram com o fim da Guerra Fria

Jim Powell teve seu romance de estreia traduzido em 15 países

A ideia de que vida e política são coisas separadas é mais uma entre as tantas ilusões que se colocam no dia a dia. Na realidade, cada um é sujeito da história. É escrevendo sua própria trajetória que o indivíduo desempenha um papel no grupo e pode contribuir para transformar a sociedade. Isso é o que acontece de forma evidente quando há uma revolução. O mundo de valores estabelecidos desaba e o sujeito se coloca frente a frente com seu destino e origem.

Feliks Zhukovski é um personagem que vive esse processo de transformação da história. Esse judeu polonês que no início dos anos 90 tinha 61 anos e era radicado na França sentiu na pele o impacto da queda do muro de Berlim, que permitiu a reunificação da Alemanha graças à intensa pressão popular. Zhukovski é o suposto narrador do livro ‘Arriscar é viver’, que inaugura a carreira de romancista do historiador inglês Jim Powell, conhecido também por ter sido office-boy dos Beatles na juventude.

Durante a Guerra Fria e a existência do muro, Zhukovski ganhava a vida editando um guia turístico sobre os países do Leste Europeu. Ele pertenceu por uma fase ao Partido Comunista francês e se definia como ‘esquerdista’, tendo sido na juventude ativista sindical e redator de um jornal de esquerda. Com o fim dos conflitos entre os blocos capitalista e soviético e o acirramento do processo de globalização, Zhukovski descobre que não consegue mais fazer sozinho a atualização do guia, frente às profundas mudanças econômicas e culturais que se disseminam nos países.

O narrador é também um sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, que vive sozinho, preferindo as ideias às pessoas, e com isso sufocando os fantasmas das feridas da guerra, depois de ter sido separado ainda criança da mãe e do irmão mais velho. Assim, ao se deparar com a oportunidade de vender o guia para uma editora norte-americana, Zhukovski viaja para os EUA e lá também reencontra o irmão, com quem restaura os laços do passado, começando a acreditar que as pessoas são mais importantes do que as ideias.

Powell adota uma linguagem simples e fluente, proporcionando ao leitor o prazer de ganhar as páginas com fôlego. A princípio, a narrativa parece colocar para o leitor apenas a discussão de questões políticas e históricas, mas o resgate da identidade de Zhukovski é um processo que escapa à racionalidade, como a queda de um muro. Pretenso esquerdista, ele se descobre alguém conservador, partindo então para a busca das coisas que realmente fazem sentido na vida.

 

Arriscar é viver,

Jim Powell, tradução de Samuel Dirceu, Geração Editorial, SP, 2012, 349 págs.

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