Estranhos valores na obra clássica de Camus

Albert Camus escreveu trilogia sobre o ‘absurdo’

Confesso que ainda não havia lido ‘O Estrangeiro’, do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). O ‘confesso’ nesse caso surge porque se trata de um romance clássico, e os leitores que apreciam literatura têm certa resistência em dizer “estou lendo Camus”, preferindo “estou relendo Camus”.

Mas é confortante saber que não estou sozinho na minha ignorância. “… por maiores que possam ser as leituras de formação de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu”, afirma o escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) em um livro chamado ‘Por que ler os clássicos’, da Companhia das Letras.

Mas a vergonha de dizer que ainda não li é uma banalidade. Os clássicos são ‘clássicos’ justamente porque são obras imortais, o que quer dizer que tem sempre alguém interessado em sua leitura. “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, escreve Calvino.

Trata-se também de um livro em que cada leitura vai suscitar novas descobertas. Com ‘O Estrangeiro’ essa impressão é marcante. Não há como dar conta de toda a teia de significados pelos quais se pode enveredar, principalmente porque a experiência do leitor se relaciona com a história.

Não pude, por exemplo, evitar as lembranças do calor inebriante de uma viagem que fiz à ilha de Marajó, no Pará, quando o protagonista de Camus dispara cinco tiros em um árabe que lhe mostra uma navalha, sob o sol escaldante de uma praia em Alger, capital da Argélia: “No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me os olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou”.

O romance é a história de um sujeito chamado Meursault que é condenado à pena de morte não apenas por seu crime, mas porque se mostrou indiferente à morte de sua mãe e também porque se nega a crer em Deus, seguindo o princípio da fé cristā, formalmente imposta à sociedade colonial da Argélia, que se tornou independente da França em 1962. O livro é de 1942.

Meursault é um estrangeiro no sentido de alguém que não compartilha dos valores vigentes; ele é um estranho em seu próprio país. O julgamento cumpre assim um destino moralista. A experiência de Meursault leva o leitor a olhar a humanidade do lado de fora, por meio do estranhamento aos sentimentos e emoções que estão mais arraigados em nossa vida.

O romance é a fala de alguém que não encontra seu lugar no grupo social. Enquanto lia o livro, fiquei me perguntando o quanto a depressāo nos dias de hoje nāo é também essa perda de espaço no grupo, já que o indivíduo não se acredita capaz de dar conta das demandas que caem sobre ele.

‘O Estrangeiro’ é a obra mais famosa de Camus, e faz parte de uma trilogia que investiga o tema do absurdo. Os outros textos sāo ‘O mito de Sísifo’ e a peça de teatro ‘Calígula’. Quando foi publicado, ‘O estrangeiro’ provocou tamanho impacto entre os intelectuais, que permitiu o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre (1905-1980) quis conhecer Camus, estabelecendo uma amizade com ele ao longo de dez anos.

O Estrangeiro,

Albert Camus, tradução de Valerie Rumjanek, editora Best Bolso, 2010, SP, 112 págs.

 

Foto: Divulgação

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