Testamento literário com pensamentos ácidos

Bukowski, que apreciava o álcool, teve uma farta produção de romances, contos e poesias

A morte é um tema permanente dos escritores. Seu fascínio está não apenas no que possui de desconhecido e enigmático, mas também nas incômodas realidades, ou angústias, que ela pode revelar. A morte representa um tabu nos dias atuais.

Simbolicamente, escrever e morrer são atos próximos. “Escrever é quando voo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate”, afirma o poeta e escritor Charles Bukowski (1920-1994) no pequeno diário ‘O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio’, publicado quatro anos depois de sua morte e que traz suas reflexões a partir dos 71 anos.

Nesse livro escrito até poucos dias antes de morrer, Bukowski, que nasceu na Alemanha e se radicou nos Estados Unidos, cumpre com o estilo ácido de sempre o destino de todo humano ao envelhecer: contar sua própria história e fazer um inventário de ideias.

Essa necessidade de deixar um testamento literário é algo que não é diferente do desejo que todas as pessoas têm ao envelhecer, que é relembrar sua trajetória e deixar para o outro um legado oral.

A morte é assim um tema que permeia o livro: “Estar perto da morte é energizante. Tenho todas as vantagens. Posso ver e sentir coisas que são escondidas dos jovens. Passei do poder da juventude para o poder da idade”.

Bukowski é o poeta dos ‘anjos caídos’ da América, um escritor que povoa suas histórias com marginais, prostitutas e outros personagens que a cultura do sonho americano tenta encobrir.

Nesse diário, ele atravessa sua rotina entre um hipódromo e as noites no computador escrevendo. As apostas nos cavalos servem como combustível para potencializar a arte da escrita. De vez em quando, algum falso jornalista bate à sua casa, e ele concede longas entrevistas regadas a vinho. Na verdade, são leitores que querem se aproximar do mito da literatura, que prefere viver isolado.

Para Bukowski, essa é uma fase de amadurecimento, que se reflete em sua produção. “Provavelmente, escrevi mais e melhor nos últimos dois anos do que em qualquer época da minha vida”. Ao mesmo tempo, sua saúde dá sinais de esgotamento. No livro, ele chega a fazer um inventário de suas doenças, como problema de visão, câncer de pele, dores nas pernas, enfim, limitações que mostram que o desejo de escrever desafia a morte.

O livro tem ilustrações do artista gráfico e quadrinista Robert Crumb, que é um mito da época da contracultura, sendo considerado um dos mentores dos quadrinhos ‘underground’.

O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio,

Charles Bukowski, tradução de Betina Gertum Becker, com ilustrações de Robert Crumb, editora L&PM Pocket, Porto Alegre, 2010, 150 págs.

Foto: Divulgação

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