Na irracionalidade da talentosa Highsmith

Joan Schenkar trabalhou 8 anos para escrever a biografia de Patricia Highsmith

A escritora americana de romances policiais Patricia Highsmith (1921-1995), criadora do personagem Tom Ripley, está de volta à livraria, não como autora, mas como personagem, na portentosa biografia ‘A talentosa Highsmith’, de 816 páginas, lançada pela editora Globo, de autoria da dramaturga americana Joan Schenkar, que trabalhou oito anos na pesquisa do livro para conferir à escritora o lugar que merece na história da literatura.

Em um artigo publicado no site ‘The Paris Review’, Joan destaca a expatriação da escritora, que preferiu viver na Europa a partir dos anos 50, por encontrar mais aceitação para suas opiniões, críticas demais diante dos valores vigentes. Patricia, por exemplo, não gostava de família. “Entre os escritores do século 20, somente André Gide tem mais coisas danosas a dizer sobre laços de sangue, mas Patricia foi mais fundo nesse tema”, afirma Joan. Outro aspecto que a afastou da cultura americana foi o lesbianismo e sua disposição para muitos casos de amor.

Joan define a escritora como alguém ambivalente ao extremo, capaz de mudar sua posição política de comunista para fascista e depois de liberal para libertária em uma única semana. A dramaturga entrevistou cerca de 300 pessoas em seis países e teve acesso ao espólio intelectual da escritora – 38 cadernos de notas, diários e 250 manuscritos inéditos.

A obra mais famosa de Patricia Highsmith é o romance ‘O talentoso Ripley’, publicado pela Companhia de Bolso. Para quem nunca leu a escritora, essa história vale a pena. Nos sebos também é possível encontrar edições mais antigas, publicadas com o título ‘O Sol por Testemunha’.

Tom Ripley é um personagem que seduziu o cinema por pelo menos quatros vezes com ‘O Sol por Testemunha’ (René Clement, 1960), ‘O Amigo Americano’ (Wim Wenders, 1977), ‘O Talentoso Ripley’ (Antony Minguella, 1999) e ‘O Retorno do Talentoso Ripley’ (Liliana Cavani, 2002). Esses filmes trazem como Ripley, respectivamente, Alain Delon, Dennis Hopper, Matt Damon e John Malkovich.

No romance, Ripley é alguém que não distingue bem a ficção da realidade, sofre de mania de perseguição, não se define sexualmente e sucumbe diante do desejo de matar. A atmosfera do livro é claustrofóbica e angustiante, e nela desponta a extrema sensibilidade da escritora para criar personagens de psiquismo doentio e oscilante.

A pedido de um empresário americano, Ripley vai para Mongibello, uma cidade no sul da Itália, em busca do filho desse homem, que deixou os Estados Unidos para viver à beira-mar, em uma vida de prazeres. Ripley então entra gradativamente em conflito com o rapaz, de quem acaba tomando o lugar. Não há julgamento moral na obra de Patricia e o crime é banal, dando um choque de realidade, ou de irracionalidade, no leitor. A biografia e a obra de Patricia Highsmith são fatalmente contaminadas uma pela outra.

(Foto: Laurence Parade/Divulgação)
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