Battisti conta os dias na carceragem da PF

Battisti no lançamento de ‘Ao pé do muro’, na USP: vítima da literatura

O que era para ser o lançamento de um livro virou um ato em defesa da inocência do ex-ativista italiano Cesare Battisti, que na quinta-feira apresentou aos estudantes da USP seu novo romance ‘Ao pé do muro’, obra que completa a trilogia em torno de sua biografia desde os anos 70, quando participava do grupo de esquerda Proletários Armados para o Comunismo (PAC). Os outros títulos são ‘Minha fuga sem fim’ (2007) e ‘Ser bambu’ (2010).

“Sou vítima da caneta; se eu não escrevesse não teria passado por isso e como tantos outros refugiados italianos espalhados pelo mundo estaria levando uma vida tranquila”, afirmou Battisti, referindo-se à acusação de quatro assassinatos durante os anos 70, época em que as forças repressivas atuavam sob a máscara da democracia na Itália. No Brasil, o escritor ficou preso por quase cinco anos sob acusação de uso de documento falso.

Em liberdade desde junho do ano passado, cinco meses depois que o presidente Lula rejeitou o pedido de extradição pela Itália, Battisti espera agora exercer apenas a imagem de escritor perante a opinião pública, mostrando que não é o ex-terrorista monstruoso reclamado por aqueles que defendem sua extradição. “A Constituição do País diz que a extradição não pode se dar por motivos políticos e poucos casos são tão políticos quanto o de Battisti”, afirmou o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que defendeu o italiano.

O professor da Unicamp e membro da Anistia Internacional Carlos Alberto Lungarzo mantém um site na internet (http://sites.google.com/site/lungarbattisti/) em que publica as provas periciais de que Battisti foi julgado na Itália, em 1982 e em 1990, com procurações falsificadas pelas autoridades. “Cesare foi perseguido porque falou a verdade sobre tabus como a máfia”, afirmou.

O livro de Battisti, que primeiro foi lançado em março em Paris, foi escrito na carceragem da Polícia Federal em Brasília, onde o escritor ficou antes de ser levado para o presídio da Papuda. ‘Ao pé do muro’ é sua décima oitava obra. A história narra a trajetória de Augusto, um foragido internacional que vem ao País em busca de proteção.

“Augusto é uma projeção”, afirma Battisti, que fez um romance de caráter prisional. “Quando acabei de escrever esse livro, tomei consciência de um pensamento de Nelson Mandela, de que ninguém de fato conhece uma nação até que se veja em uma prisão. Eu conheci o Brasil por meio da palavra de seus presos”.

Ao pé do muro,
Cesare Battisti, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Martins Fontes, SP, 2012, 304 págs.

 

Foto: Divulgação
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