A loucura e poesia da infância na velhice

Karla foi voluntária em abrigo por dois meses (Foto: Divulgação)

O mundo é dominado pelos jovens e adultos. As crianças e os idosos são atores coadjuvantes e isso indica que os valores dominantes são os da faixa dos concidadãos que produzem, estudam, ganham dinheiro e dizem o que é certo ou errado.

Mas essa lógica não funciona em ‘Minha vida de brinquedo’, romance de estreia da escritora independente Karla Lima, que coloca em cena os dramas e histórias dos moradores de um abrigo para idosos, narrados por uma menina, filha da nova diretora que assume depois de a instituição ter sido vítima de um administrador insensível.

A história começa com a morte de Ethel Shimmer em 1966, atropelada ao sair do cartório após lavrar seu testamento. Este determinava que a fortuna deixada pela viúva sem filhos fosse empregada na construção de um lar para idosos que tivesse por princípio tratar todos com respeito e dignidade.

Com sensibilidade poética e conhecimento das paixões humanas, Karla coloca o leitor frente a frente com a velhice, tema tantas vezes esquecido, ou abertamente rejeitado, já que há muitos idosos em situação de abandono por seus familiares. Amarrando a história com a perspectiva da menina, Karla revela retratos sobre a busca de nossos desejos de infância até a morte.

“Acredito que nas pontas da vida é que estão os melhores valores, e é uma pena que essas extremidades etárias gozem de tão pouco prestígio perante a faixa intermediária”, afirma a escritora, que vive em São Paulo com a parceira e esposa Pya Lima, responsável pelo título, capa, projeto gráfico e argumento (criança que mora em asilo).

No abrigo, cada personagem vive sua própria loucura, como a ex-vedete que troca de peruca várias vezes ao dia, ao sabor de seu estado de espírito, ou o botânico que conversa com as plantas em uma língua que inventou. “Se as ideias infantis sobrevivessem até a maturidade do sujeito, quanta dor seria evitada”, afirma a escritora.

Para elaborar a obra, Karla viveu dois meses como voluntária em um asilo. “Não aproveitei no livro nenhuma das histórias que vi por lá, mas a experiência foi fundamental porque eu nunca tinha estado em um abrigo antes e não tinha ideia da arquitetura, distribuição dos ambientes e outros detalhes”. Karla também conta que escreveu o romance em seis meses, trabalhando cinco dias por semana, ao ritmo de quatro páginas por dia, permeadas por algumas angústias características do processo criativo.

A capa do livro, simulando um caderno antigo, faz referência ao ‘caderno de teorias’ da menina, que diariamente apresentava à mãe um texto sobre os acontecimentos do dia no abrigo. A obra pode ser comprada pela internet, ou nas livrarias Cultura e da Vila.

Leia a íntegra da entrevista por e-mail com a escritora Karla Lima

No livro, você coloca em evidência o mundo dos idosos, que representam um estrato social esquecido, afastado, rejeitado ou invisível da sociedade. Você diria que trazer à tona os personagens e as questões esquecidas é o próprio papel do escritor?

Sim, sem dúvida esse é um dos papéis dos escritores, mas não só nosso. Toda forma de arte é um colírio comportamental, porque tudo que faz pensar ajuda a enxergar melhor e enxergar, acho eu, é o primeiro passo para agir. Também acredito que o escritor tenha outros papéis, como despertar a curiosidade, alimentar a fantasia, promover o hábito da boa leitura, educar para outras realidades, validar certos anseios, respaldar crenças e atitudes minoritárias ou incompreendidas…

Fale um pouco da história do livro, do ponto de vista de sua inspiração e transpiração… Quanto tempo você levou para escrevê-lo, como sua rotina teve de se transformar? Como surgiu a ideia?

O argumento inicial (criança que mora em asilo) foi sugerido pela minha mulher, Pya Lima, que é responsável também pelo título e pelo projeto gráfico, incluindo a capa.

Para me preparar, fui voluntária em um asilo por dois ou três meses. Não aproveitei no livro nenhuma das histórias que vi por lá, mas a experiência foi fundamental porque eu nunca tinha estado em um abrigo antes e não tinha ideia da arquitetura, distribuição dos ambientes etc.

Como sou autônoma, tenho bastante controle sobre minha rotina. Levei seis meses para escrever o MVB e nesse período me dediquei exclusivamente a ele cinco vezes por semana (às quintas-feiras em geral não trabalho, só leio o dia inteiro; aos domingos, descanso). Em um dia produtivo, conseguia redigir até quatro páginas (ô, momento sublime!) – mas também houve muitas ocasiões em que nenhuma linha decente saiu (ô, angústia!). Releio e reescrevo cada frase vezes sem conta, chego mesmo a encenar, sozinha, algumas situações; porém, uma vez encontrada a forma que julgo ideal, não torno a mexer. Se acredito no que produzi, e só avanço quando acredito, sou bem pouco aberta a sugestões e pitacos: defendo meu texto com uma ferocidade animal! Mas, dizia eu, a descoberta da expressão adequada é o momento de glória, a busca infrutífera é desesperadora (posso gastar um dia inteiro procurando determinada palavra) e a alternância entre esses dois estados é muito, muito cansativa. Quando o arquivo finalmente seguiu para a gráfica, eu estava emocionalmente exausta. E também triste pela separação: durante semanas, senti saudade dos personagens; ontem, numa livraria, vi um senhor que é a cara do Antero. Às vezes, sonho com a Bárbara.

E a opção de criar uma edição de autor? Você procurou as editoras e o que aconteceu? O livro pode ser comprado só nas livrarias da Vila e Cultura?

Este é meu terceiro livro e todos foram publicados como edição de autor. Apenas no primeiro eu procurei uma editora. Não gostei do modelo, lancei como independente, funcionou tão bem que dois anos depois fiz uma nova tiragem, funcionou de novo e repeti com o segundo livro… Não havia razão para, no terceiro trabalho, me submeter a um contrato. Gosto de ter controle sobre a produção, a distribuição e a divulgação. Na eventualidade de alguém ter interesse em adaptar para outra mídia (cinema, teatro ou outro), prefiro ter a palavra final.

Ser independente me dá liberdade total quanto a forma, conteúdo, preço e comercialização, e com isso respondo a outra pergunta. No site ‘litros de letras [veja endereço abaixo], ofereço para download gratuito o Armário sem Portas e o Ziguezagueando pelo Islã; ora, se eu estivesse amarrada a uma editora, poderia fazer isso? Nesse mesmo site também é possível comprar o ‘Minha Vida de Brinquedo’ via Pagamento Digital (boleto, cartão de crédito, transferência online).

Quanto aos pontos de venda: sim, por enquanto apenas na Vila e na Cultura, o que é pouco, mas não me preocupa: desde 2006, nossas vendas pessoais superam a venda em livrarias.

Hoje, o senso comum é um tanto opressor, visto que a mídia tenta impor visões de mundo para o sujeito. Nesse sentido, escrever seria o mesmo que navegar contra essa corrente e abrir ao leitor a oportunidade de construir outro senso?

Às vezes, porque alguns livros só fazem reforçar a obediência ao senso comum, só agravam a sujeição do leitor a um padrão medíocre de vida e a um horizonte pobre de sonhos. Outros livros, entre os quais tenho a esperança de poder incluir o meu, fazem o oposto: relembram, instigam, jogam luz sobre cantos em geral pouco iluminados do ser. Se as ideias infantis sobrevivessem até a maturidade do sujeito, quanta dor não se evitaria! E se os adultos cuidassem das crianças como um dia desejaram ser cuidados, que novos adultos estaríamos preparando! Equilibrados, saudáveis, amorosos, confiantes… O senso comum é instaurado pelos adultos. Acredito que nas pontas da vida é que estão os melhores valores, e é uma pena que essas extremidades etárias gozem de tão pouco prestígio perante a faixa intermediária.

Acredito no poder da literatura, sei por experiência pessoal como uma obra pode mudar uma percepção, transformar insegurança em esperança, rejeição em pertença, dúvida em descoberta… E muito mais.

Minha vida de brinquedo,

Karla Lima, edição da autora, SP, 2011, 236 págs.

Onde encontrar – www.litrosdeletras.com.br.

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