Viagem se confunde com o despertar da arte

Hesse adotou abordagens místicas e subjetivas em seus romances / Foto: Divulgação

Entre os livros comentados no blog ‘Livros & Ideias’, ‘O lobo da estepe’, do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962), é o que mais deixou marcas na minha experiência de leitura, a ponto de sempre retomar esse romance para inspirar algum pensamento ou texto.

A expectativa de uma nova experiência a bordo da nau imaginária e mística de Hesse surgiu ao encontrar, dias atrás, o pequeno romance ‘Viagem ao Oriente’, a última obra da longa lista de produção de um escritor que, nos anos 40, recebeu o prêmio Nobel de Literatura e também o importante prêmio Goethe.

O romance traz um narrador em primeira pessoa, chamado H.H., que faz o relato de uma viagem imaginária, sem limites de tempo e espaço, em meio a personagens imortais como Platão, Baudelaire, Pitágoras e Don Quixote. Todos participam de uma confraria, que é uma espécie de círculo de magia, em que cada um busca a realização de um desejo, ou um objetivo, como H.H., que pretende conquistar uma princesa chamada Fátima.

“Embora cada um de nós aparentasse partilhar os mesmos ideais e objetivos comuns, conservava no fundo do coração seu mais precioso sonho de infância, como fonte de coragem e consolo”, afirma o narrador, fazendo referência às subjetividades envolvidas na viagem.

Ao começar a ler o romance, achei interessante que o título original em alemão se prestasse a interpretações um tanto quanto metafóricas: ‘Die Morgenlandfahrt’, se traduzido literalmente, significa ‘viagem à terra do amanhecer’ – este é também outro modo de designar o Oriente. Mais adiante, encontrei uma referência ao tempo remoto da infância, quando o narrador compara a viagem a uma “cruzada infantil” da qual seus participantes tinham vergonha de se lembrar.

Parece assim que Hesse construiu uma alegoria de um mergulho interior, do processo que a arte desperta no artista, que é o próprio enfrentamento de suas realidades e vivências perdidas. A criação do romance é objeto das reflexões de H.H., uma vez que ele se coloca na confraria sob o desafio de descrever a viagem, enfrentando um conflito entra suas experiências e as informações secretas da confraria, que precisa preservar.

Desde o início, o narrador confessa a dificuldade de relembrar os fatos da viagem, da qual ele se revela inicialmente desertor para depois resgatar sua participação, descobrindo sentidos para o amor e sua existência, sobretudo na interação com um personagem chamado Leo, que é ao mesmo tempo líder e serviçal da confraria, alguém que em um dado momento se confunde com H.H., ampliado o poder de significação desse romance.

Viagem ao Oriente,

Hermann Hesse, editora Civilização Brasileira, RJ, 1971, 107 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

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2 pensamentos sobre “Viagem se confunde com o despertar da arte

  1. Helder, recentemente revisitei HH na obra Demian. Já havia lido o Lobo da Estepe, O jogo das contas de vidro. Ainda não li aViagem ao Oriente, vou aproveitar a dica. Não seria má ideia, pq estou escrevendo a continuacao do meu romance, quinto livro de minha autoria a ser publicado e, por ir bem a calhar. Continuo acompanhando sua coluna da FM. Saudações Literárias. Jacques Miranda

    • Caro professor, muito obrigado por suas palavras. Creio que HH é uma referência para quem busca transcendência pela literatura, é sensível ao processo criativo na arte e tem coragem de enfrentar as tormentas da alma. Ler HH é uma transformação. Desejo bons fluidos para o lançamento do romance ‘Ela Só Queria Ver o Mar’.
      abs,
      Helder

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