Robert Crumb e o louco desejo por mulheres

Aquele discurso de tom machista disfarçado, estilo Arnaldo Jabor, sobre o sexo feminino passa longe do livro de quadrinhos de Robert Crumb, ‘Meus problemas com as mulheres’, lançado aqui no Brasil em 2010. Com a coragem de um artista disposto a mostrar as próprias vísceras, Crumb traduz em histórias e desenhos suas angústias, neuroses obsessivas, fantasias e preconceitos ante a imponente figura da mulher.

O livro é feito com arroubos de sinceridade. “…os estereótipos racistas transbordam do meu cérebro, e eu preciso desenhá-los! Ponha tudo para fora da forma mais escancarada possível e não esconda a sua paranoia”, escreve Crumb  no texto “A minha obsessão por mulheres grandalhonas interfere na forma como algumas pessoas apreciam o meu trabalho”.

Longe de ser racista, Crumb diz que enfrentar esse conteúdo que cerca cada um de nós no dia a dia é uma forma de provocar uma reflexão. “Mas essa coisa toda está embrenhada profundamente na nossa cultura e no nosso inconsciente coletivo, e é preciso encará-la. Ela está dentro de mim. Dentro de todo mundo. Ela existe!”

As páginas desse livro são um elenco de esquisitices sexuais que permearam a vida do autor. Produzem risos no leitor e ao mesmo tempo criam identidade, afinal, quem entre nós não tem suas pequenas perversidades sexuais ao longo da infância, adolescência e para todo o sempre?

Absurdo, idiota e irracional, como que colocando no papel as ideias proibidas de dizer, Crumb desenha as mulheres sempre em tom superlativo, com grandes peitos, coxas e bundas. Não descarta também os pés, pelos quais demonstra verdadeira obsessão desde os tempos da escola. Quando esteve no Brasil para a Flip (Festa Literária de Paraty) em 2010 ficou encantado com as bundas das brasileiras.

De nerd rejeitado pelas meninas na escola fundamental, Crumb despontou como papa dos quadrinhos underground nos anos 60, graças às suas experiências com LSD, que se refletiam em sua obra. Caiu assim nas graças das mulheres, fez uso da própria fama e viveu loucas experiências sexuais que estão no livro.

As histórias que ancoram a edição, com título homônimo ao livro, divididas em duas partes, têm o caráter de confissões que Crumb faz no divã, levando a terapia para os quadrinhos. “Mesmo quando eu ainda era um garotinho, já havia um traço um tanto perturbador na minha personalidade…”, ele diz ao analista, em referência à compulsão por agarrar as pernas das mulheres.

 

Meus problemas com as mulheres,

Robert Crumb, tradução de Alexandre Boide, editora Conrad, SP, 2010, 100 págs.

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