Dalton Trevisan e a escrita sem concessões

O escritor curitibano Dalton Trevisan comemorou seus 87 anos na última quinta-feira, em data que não podia estar mais cercada de boas notícias. Em maio, Trevisan recebeu o Prêmio Camões, criado por Brasil e Portugal, e considerado o mais importante da língua portuguesa, e em junho foi laureado com o Machado de Assis, da ABL (Academia Brasileira de Letras), pelo qual receberá R$ 100 mil no próximo mês, nos 115 anos da Academia.

O contista de relatos ácidos, concisos, esquisitos ou misteriosos é candidato também ao prêmio Portugal Telecom, que será anunciado em novembro.  Concorrendo na categoria conto/crônica com o livro ‘O anão e a ninfeta’, de 2011, que reúne 40 histórias, Trevisan enfrentará nomes como os de Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, Luis Fernando Veríssimo, Maria Rita Kehl e Lygia Fagundes Telles.

Uma das raras imagens do escritor, que é avesso à imprensa / foto: Julio Covello

Dalton Trevisan é um artista avesso à imprensa, a fotografias e às frivolidades da vida cultural. Prefere a rotina reclusa e não faz concessões em sua arte, o que, aliás, foi um dos fatores que pesou na decisão do Prêmio Camões, segundo o escritor Silvano Santiago, que atua no júri.

Um de seus livros mais famosos é ‘O vampiro de Curitiba’, de 1965. Mas não é possível dizer que Trevisan tem esta ou aquela obra como emblemática. Sempre no exercício do conto, o escritor é mestre em roubar histórias do dia a dia, de gente simples e que se mostra, ao mesmo tempo, como sintoma das feridas do tempo presente e como expressão do eterno espírito humano.

É como se o artista estivesse à espreita pela cidade, produzindo flagrantes dos atos de seus personagens mais desprezíveis e atormentados. Nos últimos dias, por exemplo, percorri as páginas de ‘Desastres do amor’, um título de 1968, que traz 23 contos, a maior parte deles protagonizados por um ‘João’ e por uma ‘Maria’.

Fiquei aterrado com o conto ‘Nove’, que coloca em cena um casalzinho de namoro em uma rua escura, oito da noite, ele regateando um beijo e ela recusando, quando um bando de marmanjos surge e estupra a moça, sendo que o namorado se esconde, como se aquilo não fosse com ele. Nada mais revelador das nossas misérias.

Gostei também do conto ‘Canário, broca, valsinha’, em que João é um dentista que morria de ciúme de sua Maria, mas acaba por casar com Joana, “feia mas simpática”, como diz o narrador. João opera uma broca a pedal, como os dentistas do século 19, e tem hábitos estranhos – ele coloca batatas na testa para atenuar sua calvície. É também viciado em éter, um elemento presente em outros contos desse livro, que revela um hábito do consumo de drogas nos anos 60.

Desastres do amor,

Dalton Trevisan, editora Record, RJ, 1979, 134 págs.

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