Drummond reencontra o prazer das palavras

Literatura é brincar com as palavras. Simplesmente isso. Nesse campo não há toda a seriedade que por vezes assusta o leitor. Poderia dizer também que literatura é loucura, e aí estaria nomeando de outra forma as coisas intocadas que os escritores e poetas buscam.

Intocadas, neste caso, são as palavras que desfilam com ironia e sem cerimônia nas páginas de ‘As palavras que ninguém diz’, uma coleção de 19 crônicas do mestre Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), escolhidas pela escritora e professora de literatura Luzia de Maria, entre os textos semanais que o escritor e poeta publicou durante três décadas em periódicos do Rio, como o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil.

Drummond era observador atento das pequenas histórias do cotidiano

O volume faz parte da série ‘Mineiramente Drummond’, com três títulos para os leitores adolescentes. Há também títulos para crianças, estimulando suas primeiras incursões na leitura, mas ler Drummond, sobretudo para quem gosta de jogos de significados, é algo que transcende a idade.

“O jogo com as palavras proporciona prazer. Porque, quando crianças, tivemos a liberdade de brincar e gozar com as palavras”, afirma o professor de literatura francesa na Universidade de Paris Jean Bellemin-Noël no livro ‘Psicanálise e Literatura’ (editora Cultrix, 1983).

As palavras que Drummond escolhe como mote de suas crônicas são as que caíram no esquecimento, foram abandonadas pela linguagem coloquial. Quando elas ressurgem nas histórias, ganham novo sentido no contexto social em que se inserem, e essa transformação produz situações irônicas.

Um cobrador de ônibus ameaça chamar a polícia para tirar um passageiro que insiste em viajar com trajes molhados. “Vai botar o senhor pra fora porque é um… recalcitrante”, diz o cobrador. “O quê? Repita se for capaz… Te quebro a cara, ouviu?”, reage o outro. No tempo em que ‘recalcitrante’ era usado na fala, seu sentido era ‘resistir, ser insistente’.

Nomear as coisas e criar novos significados é também o jogo do amor, que irrompe na crônica ‘A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados’. O texto é como um buraco negro, porque permite condensar tudo o que surge da imaginação para dar nome ao ser amado. “Tuas paisagens, teu subsolo infernal, teus labirintos são superiores em felicidade a qualquer declaração dos direitos do homem”, diz o personagem apaixonado.

Drummond confessa que reuniu nesse texto frases que ouviu aqui e ali, que não inventou nada. Mas acaba por mostrar que o absurdo é o próprio signo do amor: “Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de ‘meu bicho-do-pé’ e receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento”.

 

As palavras que ninguém diz,

Carlos Drummond de Andrade, seleção de Luzia de Maria, editora Record, RJ, 2011, 121 págs.

Foto: Divulgação

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