Reduto dos estados mórbidos da alma

Um homem doente não sabe ao certo do que sofre. Ele vive no século 19 e, aos 40 anos, já é considerado velho. Aposentado, o ex-funcionário público é alguém que passa seus dias sob hesitações e questionamentos, mergulhado em inibições.

Esse narrador é o anti-herói do pequeno romance ‘Notas do subsolo’, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), um dos mais inovadores de todos os tempos e crítico feroz do movimento romântico europeu e russo que permeou sua época.

Como quase sempre a grande obra desafia o gênero, o livro pode ser considerado também uma novela híbrida com a prosa, ou o ensaio. O caso é que, de dois capítulos, o primeiro, intitulado ‘O subsolo’, é uma reflexão filosófica em que o narrador tenta dar conta da própria existência, razão pela qual essa obra foi tomada como fundadora do ‘existencialismo’ e enaltecida pelo escritor Jean-Paul Sartre (1905-1980).

O existencialismo é uma escola filosófica que coloca a subjetividade no centro de suas ideias, e por isso enfatiza que os seres humanos se definem por suas ações e não por palavras. Como pensamento, esse movimento destaca o sujeito de sua zona de conforto, e o coloca em confronto com suas certezas.

São Petersburgo, cidade em que Dostoiévski nasceu no século 19

O segundo capítulo do livro, chamado ‘A propósito da neve molhada’, é apresentado pelo narrador como uma novela; é quando o narrador deixa sua condição de filósofo para lidar com o mundo, enfrentar o convívio em sua cidade, São Petersburgo, numa época em que a Rússia era comandada pelo império czarista, e a sociedade refletia influência dos valores capitalistas.

Nesse importante livro da obra de Dostoiévski, o subsolo é a metáfora de um estado da alma, de um aterramento de caráter obsessivo e masoquista, por um sujeito que se sente rejeitado e ao mesmo tempo procura a rejeição. Veja o que diz o texto: “Ora, trata-se de um homem e, por conseguinte, de tudo o mais também. E o mais importante é que ele mesmo se considera um camundongo; ninguém lhe pede isto, e este é um ponto importante”.

Um aspecto que chamou a atenção também é que o narrador atribui em alguns momentos sua doença a um excesso de consciência, algo que lhe sufoca a ação e as emoções. “Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno. Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa”.

Notas do subsolo,

Fiódor Dostoiévski, tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, L&PM Editores, Porto Alegre (RS), 2008, 160 págs.

Foto: Divulgação

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