Escritor visita romance de Flaubert

Roncari explora amor, poesia e política em seu romance (foto: divulgação)

Não importa quem ama, ou é amado. O tema do ‘amor’ leva o ser humano a construir representações, a criar fantasias sobre o outro e a enfrentar fantasmas quando a solidão se impõe.  Nas hordas do amor, todos são miseráveis, buscam aquilo que não têm, acreditando que há um sentido maior para a sexualidade.

Essas ideias me acompanharam enquanto percorria as páginas do romance ‘Assim não brinco mais’, do escritor, poeta, jornalista e professor de literatura Luiz Roncari. Os sebos virtuais têm vários exemplares dessa obra publicada pela Codecri, editora que mantinha o jornal Pasquim, escrito por Jaguar, Ziraldo e outros tantos talentos nos anos 70 e 80.

Permeada pelas questões de amor e sexualidade, a narrativa se inspira claramente na tradição de ‘A educação sentimental’, de Gustave Flaubert (1821-1880), uma obra magistral, considerada a melhor do escritor francês, em que seduções, desventuras e desilusões amorosas ocorrem enquanto caem por terra os ideais da Revolução Francesa.

Roncari revisita a obra clássica e traz para a época da ação contra a ditadura militar no Brasil, no início dos anos 70, o cenário de ideais revolucionários que envolvem suas experiências amorosas e poéticas, mostrando ao leitor que política e sexo não se separam em sua trajetória. Como no romance francês, a obra da Roncari explora a personagem da mulher mais velha que ensina os brinquedos sexuais a seu anti-herói.

Intelectual, poeta e militante do Partidão, o narrador é alterego do escritor, um duplo de sua personalidade, também chamado Luiz, que teria morrido depois de deixar suas memórias, afirma o escritor no prefácio. Esse modo de colocar o narrador surge como uma das brincadeiras do escritor, já que, de fato, escrever um livro é dar vida e morte às personagens que surgem na imaginação.

Luiz é assim autor e personagem ao mesmo tempo, mas o que se vê nas páginas de ‘Assim não brinco mais’ é o escritor nu, sujeito à execração pública, como o próprio escritor diz. Para materializar a obra, Roncari cumpriu o destino de buscar dentro de si mesmo, de suas angústias, o que mais o atormentava e revela isso com sinceridade e coragem.

No limite da realidade de suas vivências, o que não descarta os seus fantasmas, o escritor se desnuda para matar os mitos que moram em sua sexualidade, algo que ele define como “tesão torto”. Ou seja: ele fala tanto de si que atinge a universalidade, pois é difícil dizer que exista algum desejo que não seja mesmo torto.

Assim não brinco mais,

Luiz Roncari, editora Codecri, Rj, 1983, 156 págs.

Onde encontrar: www.estantevirtual.com.br

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