História para sacudir a ideia de civilização

A palavra ‘civilização’ andou me perseguindo por alguns dias. Fiquei com ela na cabeça até que encontrei algo para alimentar essa obsessão pela tal palavra. ‘Laranja Mecânica’, escrito em 1962 pelo inglês Anthony Burgess (1917-1993), é um romance que ilumina a questão, é um livro feito para sacudir a ideia de ‘civilização’.

Por meio do relato autobiográfico do jovem Alex, Burgess imagina um futuro dominado por violência e totalitarismo, dando assim as mãos a escritores como George Orwell, autor de ‘1984’, e Aldous Huxley, em ‘Admirável Mundo Novo’.  São todas obras que projetam a tragédia humana no futuro.

Malcolm McDowell interpretou o jovem Alex no filme de Kubrick (foto: divulgação)

Alex e seus três amigos formam um grupo que sai às noites pelas ruas da cidade em busca de violência, sexo e drogas. Essa busca de afirmação de individualidade é algo que não tem limites tanto que, por conta de alguns momentos, o livro é classificado como de ‘ultraviolência’. Os personagens têm uma linguagem própria, e no final do livro há um glossário.

Um dos exemplos da marca da violência é o estupro da esposa de um escritor, enquanto o casal cumpria sua rotina doméstica e tem a casa invadida. Não falta crueldade na história, que começa quando a gangue agride um velho bêbado.

‘Laranja Mecânica’ é um título que projeta a grande contradição da humanidade no futuro, dada pela luta do homem em defesa de sua subjetividade, contra o massacre das instituições da civilização, como a política e a igreja. O livro tenta discutir também o quanto a maldade faz parte do ser.

Quando Alex invade a casa do escritor, ele lê um trecho da obra que estava sendo escrita que desvenda para o leitor o sentido da metáfora do título: “… A tentativa de impor ao homem, criatura superior e capaz de doçura, a fluir suculentamente, na última fase da Criação, dos cantos dos lábios barbudos de Deus, tentar impor, digo eu, leis e condições apropriadas para uma criação mecânica, contra isso eu levanto a minha pena-espada”.

‘Laranja Mecânica’ é o principal livro de Burgess e também o filme mais emblemático da obra do diretor inglês Stanley Kubrick (1928-1999).

Lançado em 1972, o filme só chegou aos cinemas brasileiros em 1978, chamando atenção por conta das cenas de nu frontal, que no nosso caso só aconteceram depois que a censura federal determinou que fossem colocadas na película cinematográfica umas bolinhas pretas para cobrir os órgãos genitais dos atores. Nessas cenas, a obra tornou-se um espetáculo patético, mas isso não prejudicou a importância do acesso ao filme, que também foi proibido em outros países.

 

Laranja Mecânica,

Anthony Burgess, tradução de Fábio Fernandes, editora Aleph, SP, 2004, 224 págs.

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