As paixões baratas do narrador de Mirisola

Enquanto navegava nos círculos literários do Facebook, vi uma opinião que chamou a atenção. Num desses posts rápidos e meio ao acaso, o internauta aficionado pelas letras dizia que sexo, pornografia, sodomia, palavras chulas e outras expressões do submundo da cultura “não têm nada a ver com literatura”.

Ledo engano. Dizer isso tem tanto efeito quanto argumentar o contrário, ou seja, que literatura só pode ser feita com esses ingredientes. Tanto em um caso como em outro, o que se tem é a tentativa de colocar uma camisa de força em um campo da arte que é pura libertação das convenções e ruptura com padrões vigentes.

O valor literário de uma obra independe de suas expressões literais, ou ao pé da letra. O que vale é a capacidade do texto levar o leitor a uma experiência transformadora, libertando-o da literalidade das coisas. Não esqueço o escritor Salman Rushdie, em entrevista durante a Flip, a Festa Literária de Paraty, em 2010: “Importante não é o que se conta, mas ‘como’ se conta”.

Assim, o que interessa na obra literária é seu impacto, como na coletânea de contos de ‘O herói devolvido’, de Marcelo Mirisola, em que o narrador é um vampiro (em um sentido sexual e perverso), que a cada história se apaixona por uma prostituta, ou tem algo muito deteriorado para contar, como em ‘Pepê, um Cara Legal’, em que o narrador tem uma transa com um portador de síndrome de Down.

Mirisola debocha das verdades estabelecidas – foto: Substantivo Plural

No início não é fácil encarar essa questão na perspectiva que o autor propõe, mas o texto costurado com pensamentos e observações sarcásticas, envoltas em ironia, acaba por colocar o leitor frente a frente com os seus próprios pensamentos perversos, que nem chegam a ser verbalizados. Mirisola cumpre assim o destino do escritor, que ao tocar em coisas tão subjetivas e particulares fala de todos nós.

As frases de Mirisola em estilo quebrado, cheias de espontaneidade e deboche, e um tom cínico e confessional, representam um ‘não’ a tudo o que é consenso, que é aceito sem pensar. No conto ‘Basta um Verniz para Ser Feliz’, por exemplo, ele explora a vida babaca de um casal de classe média e mostra como o caminho do ser humano é cheio de desvios para realizar seus desejos.

Com a narrativa fora das convenções e imersa na pornografia, Mirisola se aproxima de escritores como os norte-americanos Henry Miller e Charles Bukowski, importantes expressões do século 20, que mergulharam no submundo como que purgando suas almas, imprimindo um sentido de redenção à literatura.

O herói devolvido,

Marcelo Mirisola, editora 34, SP, 2000, 191 págs.

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