O espírito da crônica na pena de Rubem Braga

Já escrevi neste espaço que escritores são antenas da sociedade, capazes de antever tendências ou conflitos latentes, porque muitas vezes esmiúçam e revelam sentimentos que estão à margem dos valores e crenças que predominam no dia a dia.

Mas voltei a esse pensamento ao ler o livro ‘200 crônicas escolhidas’, do escritor Rubem Braga (1913-1990), em que ele mostra, por exemplo, entre suas qualidades de mestre da crônica, seu espírito visionário no texto ‘Luto na Família Silva’.

Braga entrou para a história da literatura como mestre da crônica – Foto: Rafael Silva/Reprodução

Escrita em junho de 1935 a partir de uma nota na seção “Fatos Diversos”, do Diário de Pernambuco, essa crônica homenageia um sujeito que morre na rua, chamado João da Silva, e explora o contraste entre os sobrenomes comuns e os das classes abastadas naquela época, como as famílias Matarazzo, Crespi, Guinle, Rocha Miranda, entre outras.

Braga faz assim uma defesa dos Silva em nome das pessoas simples, que estão marginalizadas na sociedade, mal representadas na política, e indica um desejo, uma aspiração: “Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política…”

Ao ler a crônica, fiquei pensando que essa história de um Silva no poder amadureceu como um projeto político no País com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, um Silva, portanto, 68 anos depois do texto de Braga.

A crônica é um gênero que se situa entre a notícia e a ficção. Essa seleção de textos produzidos entre 1935 e 1977, feita pelo autor com base em uma seleção original do escritor e amigo Fernando Sabino (1923-2004), é obrigatória para quem aprecia o gênero, que viveu uma crise em veículos impressos em períodos mais recentes e renasceu com os blogs e sites na internet.

As pessoas simples e humildes e até as coisas banais viram pequenas histórias que por vezes recorrem à sensibilidade do leitor, como o texto ‘Chegou o Outono’, em que uma folha seca que cai e bate no rosto do narrador, enquanto viaja em um bonde no Rio de Janeiro, indica a mudança do tempo: “Atrás dessa folha veio um vento, e era o vento do outono. Muitos passageiros do bonde suavam”.

Outro aspecto que agrada é a transparência de Braga com o leitor, não escondendo, por exemplo, quando falta assunto para a crônica. Em ‘Os Mortos de Manaus’, ele confessa: “Os assuntos passavam pela cabeça e iam-se embora sem querer ficar no papel”. Ler esse texto acaba sendo como participar do seu processo de composição, já que o autor mostra as dúvidas e hipóteses pelas quais passa para redigir a história.

200 crônicas escolhidas,

Rubem Braga, editora Record, RJ, 2002, 488 págs.

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