Com Coveiro e Caixão no submundo do Harlem

Himes era aclamado na Europa e esquecido em seu país

A literatura noir americana, que também chamamos de romance ou novela policial, tem alguns nomes de referência, como Dashiel Hammett e Raymond Chandler, sem contar tantos outros que perpetuaram esse gênero, que fez um casamento perfeito com o cinema, gerando inúmeros filmes.

No blog ‘romances policiais’ (www.romancespoliciais.com.br), encontrei duas listas, reproduzindo sites internacionais: os 50 maiores nomes do gênero, que os aficionados preferem chamar de subgênero da literatura, e os 50 escritores para ler antes de morrer. Nenhuma delas citava o americano Chester Himes (1909-1984), autor de oito romances que têm como protagonistas a dupla de policiais durões Jones Coveiro e Ed Caixão.

Apesar de menos conhecido, Himes é um mestre dos thrillers policiais. O terceiro da série, ‘Um jeito tranquilo de matar’, provoca um choque logo nas primeiras páginas, no relato de uma briga de bar no Harlem, o bairro negro de Nova York, quando o garçom intervém, cortando com um machado o braço de um sujeito bêbado e indomável que o havia ferido com uma faca.

Publicado em 1959, o livro traz todo o clima da malandragem que reinava no famoso bairro e revela para o leitor o racismo e a vida dos menos favorecidos na cidade que se tornou Meca do consumismo no período pós-guerra. A crítica ao racismo é a tônica das obras de Himes, que começou a escrever dentro da prisão, cumprindo sentença por roubo a mão armada. Himes conhecia o submundo e escrevia sobre ele.

A história se desenvolve com a investigação do assassinato de um branco endinheirado, chamado Galen, que era obcecado por garotas negras. Coveiro e Caixão encontram um cenário em que várias pessoas podiam ser o assassino.

Os detetives são os primeiros a chegar ao local do crime, pegam o suspeito ainda com a arma na mão, mas Caixão tem um surto quando um dos caras da gangue dos Muçulmanos Supermaneiros joga perfume em seu rosto – ele acha que é ácido, saca o revólver, começa a atirar e os suspeitos fogem. O detalhe desse episódio é que Caixão já tem o rosto marcado por queimadura de ácido.

No esforço de colocar alguma ordem no insano Harlem, Caixão encontra até a filha envolvida na teia do assassinato. Um aspecto interessante da história é que ela é também o retrato da comunidade que vivia ali naquela época. Ao investigar o motivo do crime, Coveiro afirma: “Roubo não foi, e aqui no Harlem ninguém mata por vingança”. Ou seja, até mesmo o crime tem uma ética.

Um jeito tranquilo de matar,

Chester Himes, tradução de Celina Falk Cavalcante, editora L&PM, 2008, 200 págs.

Foto: Divulgação

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s