Paris nas memórias de um jovem escritor

Era fim de outubro, época de pleno outono na Europa. Os jovens sentados nas calçadas, trajando jeans rasgados e jaquetas de couro, comiam macarrão em marmitex e sorviam do vinho barato que as barraquinhas ao redor da Place de la République ofereciam. Era um sábado à noite, havia muita conversa, disposição e um clima de excitação no ar que contagiava todos.

Hemingway com Fidel Castro em Cuba

Essa é a principal impressão que guardo de Paris, quando a conheci no início dos anos 90. Longe dos grandes monumentos, museus ou cartões-postais, minha tosca memória registra um momento de efervescência, em que me dei conta de que Paris é uma cidade que valoriza a convivência, e por isso desperta emoções.

“Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante”, escreveu Ernest Hemingway (1899-1961) a um amigo, em 1950.

Essa frase introduz o romance ‘Paris é uma festa’, um relato de memórias do escritor na Cidade Luz no início de sua carreira, em 1920, quando abandonou o jornalismo para se arriscar na vida de escritor, buscando publicar os primeiros contos em revistas.

Hemingway monta um retrato de Paris – esse é seu objetivo expresso –, mostra detalhes de lugares preservados até hoje, graças ao forte apelo cultural da cidade, que historicamente tem inspirado os artistas.

Ele fala também de sua convivência com escritores como Gertrude Stein, Ezra Pound, Scott Fitzgerald, John Dos Passos e James Joyce, entre outros.

Na narrativa dessas relações, Hemingway humaniza os escritores ao seu redor, revelando até mesmo suas misérias, como neste depoimento sobre Gertrude Stein: “Durante três ou quatro anos em que fomos bons amigos, não consigo lembrar-me de ter ouvido Gertrude Stein falar bem de qualquer escritor que não tivesse escrito favoravelmente sobre sua obra ou feito alguma coisa para promover sua carreira…”

Mas o romance tem também um caráter importante ao trazer para o leitor as reflexões de um escritor em formação, que busca compreender o exercício de sua arte e desenvolver técnicas para escrever: “Tudo o que tens a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreve a frase mais verdadeira que souberes. Assim, finalmente conseguia escrever uma frase verdadeira e avançava a partir daí”, afirma Hemingway.

O livro foi escrito a partir de 1956, quando Hemingway encontrou os cadernos de anotações da época em que viveu na cidade. E foi editado postumamente, em 1964, pela quarta esposa do escritor, Mary Hemingway.

Paris é uma festa,

Ernest Hemingway, tradução de Enio Silveira, Bertrand Brasil, 2006, 240 págs.

Foto: Clifford Coffin/Divulgação

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s