John Fante na montanha russa das paixões

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Fante publicou ‘Pergunte ao pó’ em 1939

Devorei as páginas de ‘Pergunte ao pó’, de John Fante (1909-1983), um romance que me arrebatou desde o princípio, com sua verve de paixão e sentimentos incertos, algo que poucas vezes se vê em um livro.

O título é um clássico, precursor da literatura beat, que teve expressões como Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg, e até hoje influencia gerações, como a dos brasileiros Marcelo Mirisola e Clarah Averbuck, que tributam a Fante a decisão de se tornarem escritores.

Charles Bukowski também bebeu nas fontes do americano quando era jovem. Aliás, é dele o prefácio de ‘Pergunte ao pó’: “Ele [John Fante] se tornaria uma influência no meu modo de escrever para toda a vida”, afirma Bukowski, considerando que os livros eram escritos “das entranhas e do coração”.

O protagonista do romance é Arturo Bandini, de ascendência italiana e alterego do escritor, que com esse personagem compôs quatro títulos, sendo ‘Pergunte ao pó’ o mais famoso deles, um divisor de águas na carreira de Fante. Os outros livros do chamado quarteto Bandini são ‘Espere a primavera, Bandini’, ‘Sonhos de Bunker Hill’ e ‘O caminho de Los Angeles’, todos eles com edições em português.

‘Pergunte ao pó’ segue uma trilha narrativa carregada de autobiografia em que Bandini, aos vinte e poucos anos, perambula como um marginal pelas ruas de Los Angeles nos anos 30, buscando inspiração para se tornar escritor. Em um café, ele se impressiona pela garçonete, Camilla Lopez, uma morena de procedência mexicana – linda, exótica e pobre –, com quem tenta um relacionamento tumultuado, carregado de ódio, tensão e paixão.

Um desacerto constante permeia a relação dos jovens, enquanto Bandini pouco a pouco consegue se estabelecer como escritor, publicando seus primeiros contos em revistas. Tudo acontece como se nos bastidores das histórias a vida fosse selvagem e incontrolável.

Não há meio termo para os desejos da juventude, um turbilhão de emoções emerge das entranhas e por isso o amor se torna impossível. Não existe sentimento que se sustente em sua coerência.

Bandini vai ao correio e manda um telegrama para Camilla, dizendo que deseja se casar com ela. Mas antes de o telegrama chegar ao destino, ele se mostra arrependido,  cerca o carteiro na rua e tenta dissuadi-lo de entregar a mensagem. Fante revela assim uma verdade que nos incomoda: mascarar a realidade com certezas e decisões duradouras é tão angustiante quanto viver em busca de sentido.

Pergunte ao pó,

John Fante, tradução de Roberto Muggiati, José Olympio Editora, RJ, 2011, 206 págs.

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2 pensamentos sobre “John Fante na montanha russa das paixões

    • Cara Danusa, deconheço uma edição unificada dessas obras. Mesmo nos sebos,onde você encontra publicações mais antigas, o que há são apenas edições de cada obra do Fante. Abraços,

      Helder Lima

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