Uma relação bombástica entre mãe e filho

Uma mulher tem o direito de não querer ser mãe e isso, por si só, seria suficiente para colocar fim à discussão. Mas não é bem assim que as coisas acontecem. Entre a falta de desejo de ter um filho e a pressão que marido, família ou a própria cultura exercem sobre a mulher, Eva Khatchadourian acaba por assumir o “roteiro pronto” da maternidade, mas se arrepende no momento mesmo em que descobre estar grávida.

Eva é a narradora do romance ‘Precisamos falar sobre o Kevin’, escrito na forma de uma sequência de cartas ao marido, Franklin, entre novembro de 2000 e 8 de abril de 2001. Eva faz uma revisão de sua vida como mãe a partir da chacina cometida pelo filho, Kevin, aos 16 anos, tirando a vida de sete colegas de escola, uma professora e um empregado da lanchonete. O adolescente era um exímio atirador de arco e flecha e o final do livro é surpreendente.

A obra é ficcional, mas também inspirada na realidade desses garotos “columbine”, cujos assassinatos em massa são alardeados pela mídia no mundo. Depois de ter sua vida fraturada pelo episódio na escola de um subúrbio de Nova York, Eva procura elaborar sua culpa com um discurso impactante, que admite que o ódio entre mãe e filho é um sentimento que se estabeleceu desde o princípio, quando o bebê se recusava a mamar em seu seio.

Eva e Kevin no filme de Lynne Ramsay: agressão e culpa (Foto: Divulgação)

Os planos narrativos do presente e do nascimento e infância de Kevin se alternam no discurso da mãe, que mostra que o filho representou angústia e privação, obrigando-a a se afastar de seus objetivos profissionais.

Para o leitor, o livro coloca em perspectiva a ambivalência de sentimentos, ou seja, o amor e o ódio que permeiam a relação com os filhos, e que são encobertos pela fala dos pais, que acreditam somente transmitir amor às crianças.

O romance foi publicado em 2003 e no ano passado ganhou sua versão cinematográfica, com direção da escocesa Lynne Ramsay. A relação às avessas chocou o público do Festival de Cannes, onde o filme foi apresentado pela primeira vez.

A história de Kevin é a do crescimento de um psicopata assassino. Mas é também uma denúncia da hipocrisia da sociedade americana e do mundo globalizado. Kevin é um sujeito, um monstrinho sarcástico, que brota no seio de uma sociedade paranóica, que pune os indivíduos de maneira doentia e exagerada.

Entre Eva e Kevin, o ódio é levado às últimas consequências, exaurindo a força dos personagens que nesse processo descobrem se amar. Em última instância, é do amor que trata o livro de Lionel Shriver, e mais do que isso, mostra como a relação entre mãe e filho é fundamental para a vida de cada um.

 

Precisamos falar sobre o Kevin,

Lionel Shriver, tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro, editora Intrínseca, RJ, 2012, 464 págs.

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