Hobsbawm nos ensina o sentido da história

Na minha época de ginásio, que hoje chamamos de ensino fundamental, o professor de estudos sociais torcia o nariz quando pronunciava o nome do filósofo Karl Marx (1818-1883) e deixava a impressão que o tal pensador era uma espécie de demônio que blasfemava contra o capitalismo e as liberdades individuais.

Eram os anos 70, a ditadura ainda bombava, apesar da crise do petróleo, e nós, pobres adolescentes ignorantes, que temiam até mesmo os “efeitos adversos” da masturbação para a memória, acreditávamos que aquele tal Marx era mesmo coisa ruim e descabida.

Historiador foi um dos maiores intelectuais do século 20

Algum tempo depois, na faculdade, e agora com a oportunidade de ler os textos e deixar o próprio Marx falar, compreendi que muito da energia gasta com o aprendizado no ginásio fora em vão, já que a escola não apenas impediu o acesso ao pensamento do autor, como também tentou criar preconceito onde deveria haver conhecimento.

Mas os tempos mudaram… Ou nem tanto. Acompanhando as notícias da morte do historiador e pensador marxista Eric Hobsbawm na última segunda-feira, tropecei em uma notícia no site da Veja, que logo na segunda linha dizia a que vinha, chamando o talvez mais importante historiador do século 20 de um “idiota moral”, por conta de sua defesa do comunismo.

Os conservadores, em geral, querem acreditar que Hobsbawm estava ultrapassado por causa de seu vínculo com o pensamento de Marx. Ocorre, no entanto, que as filosofias do barbudo alemão e do idiota moral continuam mais vivas do que nunca nos cursos de ciências humanas e economia, que o digam os estudantes e professores dessas áreas.

“As crises do mundo contemporâneo mostram que a acumulação de capital e a forma-mercadoria não podem mais ser o princípio organizador da vida social. É o desafio que está posto para nós neste século. O pensamento de Marx nunca esteve tão vivo”, afirma o escritor César Benjamin, em um artigo chamado ‘Atualidade de Marx’ (Revista Espaço Acadêmico, n. 42).

Em entrevista ao jornalista italiano Antonio Polito, no livro de bolso ‘O novo século’, de 1999, Hobsbawm explica por que acredita no marxismo: “… a história que mais me interessa é a analítica, ou seja, aquela que procura analisar o que ocorreu em vez de simplesmente descobrir o que aconteceu”.

Esse livro do mestre historiador é uma boa oportunidade para o leitor compreender o processo de globalização no século 20, que termina em dupla tragédia: o colapso da União Soviética e o que Hobsbawn chama de “bancarrota do fundamentalismo neoliberal”, em referência ao fracasso da liberação dos mercados, que gerou crises globais.

O novo século, entrevista a Antonio Polito,

Eric Hobsbawm, tradução de Claudio Marcondes, Companhia das Letras, SP, 2010, 175 págs.

Foto: Divulgação

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