Escritor convoca as memórias de infância

Viana é considerado um dos mestres do conto contemporâneo

O medo do desamparo, um sentimento tão presente na infância, sobretudo quando perdas reais estão em jogo, como a morte de um ente querido, percorre as páginas de ‘Cine privê’, que reúne 20 contos da lavra do escritor sergipano Antonio Carlos Viana.

O que mais me tocou nesse livro foi poder mergulhar em uma ficção que transporta o leitor para o ponto de vista da criança, em meio à angústia de desconhecer as coisas do mundo e ter de enfrentar a crueldade dos adultos, como no caso do narrador do conto ‘Quando meu pai voltou’, referindo-se ao pai: “Sempre me achou muito tapado por não saber dar brilho nos sapatos que ele consertava. Dizia que, comparado a meu irmão, eu não ia ser nada na vida, que eu era menino sem jeito, não dava nem para ser goleiro de um timezinho qualquer”.

Viana ambienta suas histórias no sertão e transporta as características de aridez desse ambiente para o aspecto formal da sua narrativa, que é curta, concisa, seca no tratamento dado aos personagens, mas ao mesmo tempo precisa como o corte de um punhal.

O conto ‘Dia de parir cabrito’ é um importante momento do livro na questão das representações do universo infantil. A narrativa é criada em torno das teorias que surgem na infância para explicar o modo como nascemos. Na história, o autor explora as fantasias da curiosidade das crianças, enquanto são mantidas isoladas dentro de casa pela mãe para executar o trabalho. “No dia em que alguma cabra ia parir, era aquele mistério todo. Minha tia solteirona também não podia ver, só minha mãe, que já conhecia a vida. Era assim que falavam.”

Mas Viana não escreve apenas sobre o sertão. O conto que dá título ao livro, ‘Cine privê’, é uma história urbana, que tem em comum com os contos do interior a narrativa em torno do personagem marginalizado, que não tem perspectiva de vida, ou vive com a dignidade arranhada, como o seu Manuel nessa história, cujo emprego é limpar as cabines de um teatro pornô. O autor coloca em perspectiva a falta de oportunidade à educação, que ainda hoje massacra uma infinidade de brasileiros que tentam sobreviver no mercado de trabalho. O que resta ao seu Manuel parece ser um lugar de inibição, sem que jamais ele possa mostrar sua “macheza”.

O escritor Antonio Carlos Viana é considerado um dos mestres do conto contemporâneo. ‘Cine privê’ é o seu mais recente livro, lançado em 2009. Outros títulos de referência de sua obra em contos são ‘Aberto está o inferno’ e ‘O meio do mundo e outros contos’. Viana é também professor de teoria literária e tradutor, sendo que os temas ligados à memória de infância e à morte estão presentes na maior parte de sua obra ficcional.

 

Cine privê,

Antonio Carlos Viana, Companhia das Letras, 2009, SP, 104 págs.

Foto: Divulgação

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