Confusão entre palavra e palavrão paira no ar

O leitor ligou para a redação do jornal e falou com o editor-chefe. Disse que não estava certo usar a palavra “genitália” no artigo sobre o romance da escritora Hilda Hilst (1930 – 2004), afinal, era preciso respeitar o público.

Naomi teve seu livro censurado pela Apple

Mas o fato é que a tal palavra faz referência àquele conjunto de órgãos que permitem que a vida se exprima em sexualidade, e não chega a estar entre as de baixo calão. Digamos que o leitor pecou pelo exagero. “Aliás, tabu, tabu linguístico é genitália. A palavra apenas esconde outras que não se dizem em público”, escreveu Otto Lara Resende (1922-1992) em uma crônica na Folha de S.Paulo, em seu último ano de vida.

Algo semelhante a uma confusão entre palavra e palavrão também aconteceu em setembro, num caso que colocou o órgão feminino no centro da celeuma, quando a livraria virtual da Apple, a iTunes Store, censurou o livro da escritora norte-americana Naomi Wolf, ‘Vagina: uma nova biografia’.  Para que a referência ao título ficasse “de acordo” com seu pretenso padrão, o site grafou “v****a”, onde deveria escrever “vagina”.

O excesso de cuidado, que chega a redefinir o sentido das palavras, é uma manifestação de valores conservadores na sociedade em que vivemos hoje. Engraçado é que essas expressões surgem como algo que nos escapa, já que a ilusão geral é de que a sociedade permite que o indivíduo se exprima no mais amplo espectro de seus desejos.

A confusão com a linguagem é um sintoma dos nossos dias, e talvez resulte do imenso abismo entre os atos e a fala, algo que a pessoa muitas vezes não percebe. Até mesmo onde deveria haver clareza quanto às posições relativas de texto e contexto, o que quer dizer que uma palavra pode caber em uma situação e não em outra, predomina a confusão.

Isso foi o que aconteceu quando a Academia Brasileira de Letras (ABL) interrompeu a transmissão na internet de palestra do historiador Jorge Coli sobre arte, sexo e pornografia, quando ele se referiu a vagina com um termo chulo, enquanto exibia o quadro ‘A origem do mundo’, de 1866, do pintor francês Gustave Courbet, que traz em primeiro plano uma genitália feminina retratada com realismo.

Não se trata de negar a necessidade de interdições, ou proibições, para garantir o convívio social. O crime da pedofilia é exemplo de que as regras são necessárias. Mas para além das fronteiras das nossas raízes de valores, e até de preconceitos, as palavras alimentam a imaginação e as produções culturais, sejam elas simples termos ou palavrões.

As palavras que têm mais sinônimos, porque ganham asas no imaginário popular, são justamente aquelas que estão ligadas aos tabus. “Para nomear um certo algo masculino , por exemplo, há 126 sinônimos”, escreveu Resende em sua crônica, na qual ele também diz que encontrou mais de 200 vocábulos para o correspondente feminino. Deixar de lado o preconceito, portanto, talvez seja uma ideia para pensar com mais abrangência.

Foto: Divulgação
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