Perturbadora sensibilidade

Veríssimo escreveu sobre semântica do lixo

Veríssimo escreveu sobre semântica do lixo

Ela é esbelta, olhos claros, roupas de grife e carro importado, seios aparentemente de silicone, férias na Europa, emprego como gerente de multinacional… Tudo o que um homem bem sucedido e jovem pode querer, o que certamente não é o meu caso. Aliás, ela era noiva. Quase sempre via o mauricinho buzinando na sua porta, usando óculos escuros e tiara sobre os cabelos escorridos, um cara realmente bacana.

Um dia ela bateu em casa e por um momento imaginei a gente fazendo coisas proibidas. Mas ela queria apenas uma dica de leitura de um livro do Luis Fernando Veríssimo, que está no hospital há dias. Justificou: “Soube que você escreve sobre literatura, pensei que pudesse me indicar algo, tenho visto notícias…”

“Claro”, respondi, e assim saquei da estante e emprestei pra ela um clássico do Veríssimo, sucesso desde os anos 80, uma obra realmente emblemática de sua produção: ‘Todas as histórias do analista de Bagé’. O livro traz contos hilariantes de um analista gaúcho que trata seus pacientes a tapa. Ainda dei uma dica: “não deixe de ler o conto ‘O lixo’, que é bem interessante”.

Gosto do tal conto porque ele traz uma conversa entre vizinhos, e cada um confessa que espiou o lixo do outro e assim, um descobre as intimidades do outro até que se arriscam em uma aventura. É possível falar em análise semântica do lixo, que nos permite “ler” a vida no cotidiano; aliás, é pelo lixo que tornamos a nossa intimidade pública.

Dias depois encontrei a vizinha. “E aí, o que achou do Veríssimo?” Mas ao me ver, ela caiu em prantos. Disse que chegou um dia na casa do partidão e enquanto ele tomava banho foi fuçar no lixo. Encontrou uma taça de vinho quebrada e, em seus pedaços, marcas de batom. Depois, no lixinho do banheiro descobriu a prova fatal. Ficou indignada, desmanchou o noivado. Já estavam de apartamento comprado e tudo.

Convidei-a para um chá de casca de laranja ou alguma outra baboseira em casa. Ela se acalmou. Agradeci a Veríssimo pela graça alcançada. Não fosse aquele conto, ela ainda estaria noiva, afinal, ela aprendeu a revelar os mistérios do lixo.

Mas alegria de pobre dura pouco. Dias depois, outra buzina tocava em sua porta, e desta vez, também com tiara e cabelo escorrido, um pouco mais claro. Eu estava condenado a, quem sabe, encontrar outro conto que a salvasse… Mas aí acordei. Claro, isso foi um sonho, vizinha de cinema é coisa rara. O que fica de real dessa história é que as mulheres têm sensibilidade única para perceber a traição.

veríssimo - capaTodas as histórias do analista de Bagé,

Luis Fernando Veríssimo, editora Objetiva, RJ, 2002, 80 págs.

Foto: Divulgação

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