A vida do lado palestino

Um livro pode contribuir para mudar a ideia que o leitor tem de um determinado assunto, principalmente se estiverem envolvidas aí questões éticas, políticas ou de direitos humanos.

No fim de novembro, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) conferiu o status de estado observador à Palestina, achei que era momento de resgatar um desses livros transformadores sobre a questão, afinal, o reconhecimento da ONU marca um momento histórico para que o povo de predominância árabe e muçulmana alcance a liberdade, a paz e resgate sua dignidade, historicamente e ainda hoje massacrada pelas imposições do governo israelense.

Família palestina desenhada por Joe Sacco

Família palestina desenhada por Joe Sacco

O título que iluminou esse momento foi ‘Palestina: uma nação ocupada’, do jornalista Joe Sacco. Eu diria que esse título é mais do que especial: primeiro porque se arrisca em algo aparentemente improvável, oferecendo ao leitor uma reportagem em linguagem de quadrinhos; segundo, porque é capaz de trazer à tona a realidade de um povo que vive como se não existisse aos olhos da mídia internacional. “Eu cresci pensando que todos os palestinos fossem terroristas”, afirmou Sacco em entrevista no início de dezembro.

Sacco nasceu em Malta, morou na Austrália e atualmente vive nos Estados Unidos. Ele estudou jornalismo na Universidade do Oregon e adotou a linguagem dos quadrinhos em seus trabalhos, consciente de que a imparcialidade do jornalismo é um mito. Assim, esse livro, que é seu primeiro projeto nessa linha, lançado nos anos 90, vai contribuir para o leitor mudar sua visão dos palestinos e também sobre a forma como a informação é tratada no noticiário atualmente.

Em ‘Palestina’, o autor apresenta histórias curtas como fragmentos de sua permanência por dois meses em cidades da Cisjordânia, como Hebron e Nablus, e outras localidades em que o conflito marcado pelo ódio se mostra entre forças desiguais. Sacco visitou hospitais e campos de refugiados, entrevistou feridos, conversou com pessoas comuns que perderam entes queridos ou guardam marcas do conflito e testemunhou episódios de abuso de autoridade.

O resultado é que o livro forma o retrato humano de um povo que no mito sionista também não existe: “Não é como se houvesse um povo palestino que se considerasse um povo palestino e que nós chegamos, expulsamos e tomamos seu país. Eles não existiam”, disse Golda Meir, primeira-ministra de Israel entre 69 e 74. Essa afirmação é reproduzida no livro e um aspecto interessante é que o contexto da viagem de Sacco é recheado de dados históricos, ajudando a compreender as questões que atravessam o tempo.

Joe Sacco - Palestina - capa2Palestina: uma nação ocupada,

Joe Sacco, tradução de Cris Siqueira, editora Conrad, SP, 2004, 143 págs.

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