Entre vozes de almas penadas

Juan Rulfo foi precursor do realismo fantástico

Juan Rulfo foi precursor do realismo fantástico

A riqueza da produção latino-americana com os escritores modernos da segunda metade do século 20, como os argentinos Júlio Cortázar e Jorge Luis Borges, ou o colombiano Gabriel García Márquez, é algo que merece lugar seleto na biblioteca do leitor.

Os críticos convencionaram chamar de realismo ‘mágico’ ou ‘fantástico’ a produção desse grupo, que no Brasil também conta com representantes como Murilo Rubião e José J. Veiga.

Mas há um pequeno livro que é fundamental para ingressar nesse universo de obras, porque tem um caráter precursor. ‘Pedro Páramo’, do escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986), é uma novela que influenciou toda essa geração e que faz o leitor mergulhar em um mundo sem fronteiras entre a vida e a morte, ou entre presente e passado.

‘Pedro Páramo’, de 1955, é um dos dois títulos aclamados que Rulfo publicou em vida. O outro é a coleção de contos ‘Chão em chamas’. A escassez de títulos é o contraponto do talento de Rulfo, que traz em sua novela a história de uma busca de identidade que ganha muitos significados no percurso do livro.

Na história, investido de um pedido da mãe em seu leito de morte, Juan Preciado viaja a um povoado chamado Comala, onde vive seu pai, Pedro Páramo. Mas o que o narrador encontra é um lugar deserto, habitado apenas por almas penadas, cujo sofrimento o assombra e causa estranheza.

Nas primeiras páginas, Juan segue viagem em companhia de um arrieiro, Abúndio, que lhe revela ser também filho de ‘dom Pedro’, como era chamado o proprietário de todas as terras de Comala. Logo, no entanto, Juan descobre que Abúndio era uma alma presa aos seus pecados, como todos os outros personagens que encontra.

A narrativa não tem sequência. Os textos se associam livremente como pedaços de memórias que vagam no tempo e no espaço e se manifestam por vozes. Com esse tipo de forma narrativa, o escritor expressa a falta de completude ou de felicidade na vida que as almas movidas pelo rancor não conseguem deixar para trás.

Pedro Páramo é o protótipo do concentrador de terra, movido por vingança e ódio, o que leva à solidão, a um deserto de alma. A novela reflete o contexto histórico da Guerra dos Cristeros, um levante rebelde no fim dos anos 20 no México em favor da igreja e contra o Estado.

Na vida do escritor, essa revolução, quando ele tinha cerca de dez anos, representou a morte do pai e a ruína de sua família, visto que ele era filho de proprietários de terra. A obra tem assim um forte apelo autobiográfico.

 

Juan Rulfo - capaPedro Páramo,

Juan Rulfo, tradução de Eliane Zagury, editora Paz e Terra, RJ, 1996, 162 págs.

Foto:  Divulgação

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